A máquina não tem o que dar

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Manuscrito escrito à mão sobre escrivaninha antiga ao lado de uma tela acesa, ilustrando o contraste entre autoria humana e texto gerado por máquina.

Vejamos primeiro os fatos, que são simples e não precisam de adjetivo.

Neste mês, duas agências literárias retiraram do mercado o manuscrito de um romance policial do autor nigeriano Jerry Falade. O livro tinha contratos milionários nos Estados Unidos e no Reino Unido e lançamento marcado para 2028. Foi retirado porque as próprias agências declararam não saber se a obra fora escrita pelo autor ou por um programa de computador. Meses antes, a Hachette cancelara o lançamento de um romance de horror pela mesma suspeita. Em maio, um prêmio britânico de contos viu três de seus vencedores acusados da mesma coisa. Uma sondagem feita em 2025 apurou que sessenta e um por cento dos leitores se sentiriam menos realizados ao descobrir que um livro que amaram saíra de uma máquina.

Ora!

Diante disso, o mundo editorial ergueu um clamor e correu a fazer o que o mundo moderno sempre faz quando se depara com uma questão moral: chamou o técnico. Encomendou detectores. Discute agora taxas de falso positivo, marcas d’água, protocolos de verificação, selos de procedência. Quer resolver com engenharia um problema que não é de engenharia.

Note bem o leitor o absurdo da cena. Constrói-se uma máquina para escrever. Descobre-se que ela escreve. Constrói-se então uma segunda máquina para descobrir o que a primeira escreveu. E confia-se a esta segunda o poder de destruir a reputação de um homem, porque uma acusação dessas, hoje, incinera uma carreira em uma tarde. Pergunto: em que tribunal decente se condena alguém pelo veredicto de um aparelho que seus próprios fabricantes admitem errar? Um estudo de Stanford já mostrou que esses detectores são injustos com quem escreve em língua que não é a sua. Acusar sem prova sempre foi pecado grave, e continua sendo quando a acusação vem embrulhada em porcentagem.

Mas não é disso que quero tratar. Isso é sintoma. Vamos à raiz.

A palavra autor vem do latim auctor, que vem do verbo augere: aumentar, fazer crescer. Autor é aquele que faz crescer o ser. É palavra da mesma família de auctoritas, autoridade, que na Roma antiga não significava mando, significava a capacidade de dar fundamento a alguma coisa. O autor de um livro é o autor no mesmo sentido em que se diz que alguém é o autor de seus atos: ele responde por eles. Há alguém ali de pé, dando a cara.

Ora, a máquina não aumenta coisa alguma. Ela recombina. Não faz crescer o ser, porque não tem ser que cresça. Não responde por nada, porque não tem por onde responder. E, sobretudo, não tem intenção, e sem intenção não há arte.

Santo Tomás define a arte como recta ratio factibilium, a reta razão do que se pode fazer. Reta razão. Não cálculo, não estatística, não probabilidade da palavra seguinte. Razão que ordena a matéria a um fim que ela mesma concebeu. Aristóteles ensinava que a arte imita a natureza, e a natureza, dizia ele, opera por um fim. Retire o fim e não sobra arte. Sobra ruído!

Por isso o leitor sente o que sente ao descobrir que o livro veio da máquina, e sente com razão. Ele não foi lesado no produto. Foi lesado no encontro. Quem abre um livro faz, sem saber que faz, um ato de confiança antiquíssimo: acredita que do outro lado da página há alguém que sofreu para dizer aquilo. Que escolheu aquela palavra e não outra porque aquela dizia melhor a coisa. Que viveu, e do que viveu tirou isto. Descobrir que não havia ninguém ali é descobrir que se conversou sozinho durante trezentas páginas. É humilhação, e o leitor tem todo direito de se sentir humilhado.

E aqui chegamos ao ponto que ninguém quer dizer.

O escândalo não está na máquina. A máquina é inocente, como é inocente o martelo. O escândalo está no homem que a quis e no motivo pelo qual a quis. Ele a quis para produzir sem gerar. Para ter a glória do autor sem pagar o preço do autor. Para colher onde não semeou.

Isso não é novidade nenhuma. É o mais velho dos erros, e tem nome. É o erro daqueles que em Senaar disseram uns aos outros: façamos para nós um nome. Não receber o nome, fazer o nome. Não gerar, fabricar. Não ser autor, parecer autor. O gnóstico de todos os séculos sempre quis exatamente isto: ser criador sem ser criatura, produzir a partir de si o que só se recebe.

Deram-lhe agora uma ferramenta à altura do desejo. E ele se espanta com o resultado.

Não se iludam os que acham que um selo resolve. Podem carimbar na quarta capa “livre de inteligência artificial”, como se carimba ovo caipira. Servirá de alguma coisa, e é justo que se faça, porque o leitor tem direito à verdade sobre o que compra. Mas selo é medida de polícia, não é remédio. O remédio é outro e é impopular: é voltar a acreditar que escrever custa, que custar é bom, e que o esforço não é um defeito do processo a ser eliminado pela técnica, mas exatamente aquilo que faz do texto uma obra e do escritor um homem.

Há quem já tenha entendido isso sem precisar de tratado. Um romancista inglês, perguntado por que não usa a ferramenta, respondeu que não quer que um computador faça o trabalho de que ele gosta. Está dito. Não quer, porque ama o que faz. E quem ama o que faz não terceiriza.

Escrever nunca foi produzir texto. Foi sempre um homem tentando dizer a verdade com as palavras que tem, e falhando, e tentando de novo. Tirem daí o homem e não sobrou literatura. Sobrou papel impresso.

Que é, aliás, exatamente o que se quis.

As informações factuais citadas foram apuradas por The Christian Science Monitor, The New York Times e The Observer, e a pesquisa de recepção mencionada foi conduzida pelo YouGov em 2025.

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Filósofo e articulista. Escreve como quem conversa à mesa, com ironia e franqueza, sobre o que a filosofia perdeu quando deixou de buscar a verdade. Para ele, pensar é resistir à confusão do tempo presente — é manter acesa a chama da lucidez num mundo que já se acostumou à mentira. Em seus textos, fala ao leitor como a um amigo, provocando-o a não ter medo de ver as coisas como realmente são.
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