Uma pessoa é humilhada publicamente numa rede social. Há duas coisas que ela precisa distinguir: defender-se da injustiça e praticar outra injustiça. A tentação é responder na mesma moeda, expondo uma fraqueza do agressor, acrescentando uma acusação, caprichando no insulto. A plateia exige a revanche. Parece oferecer coragem, mas pede um espetáculo. O ofendido tem razão ao reclamar do que sofreu. Terá razão em tudo o que fizer a seguir? É precisamente aí que começa a lição de Sócrates.
Onde a frase aparece?
No Górgias, diálogo de Platão, encontramos, na Parte II da edição que seguimos, o embate entre Sócrates e Polo, jovem discípulo do retor Górgias. Polo admira a condição do poderoso: fazer o que se quer, dispor da vida alheia, escapar à punição. Quem possui tamanho poder não seria feliz? Sócrates sustenta a tese que provoca o riso de seus interlocutores atenienses. O êxito do injusto pode ser justamente a sua desgraça.
Vejamos as palavras: “Eu dizia que cometer injustiça é pior do que sofrê-la”. Polo responde: “Eu diria que sofrê-la é o pior.” A discordância é exata. Ambos reconhecem um mal; divergem sobre qual é maior. Polo olha primeiro para a vítima ferida. Sócrates obriga a olhar também para o agente da ferida. Não está negando o sofrimento. Está perguntando o que acontece àquele que decide causá-lo injustamente.
E como resolver a questão? Sócrates explica: “pois produzirei uma única testemunha da verdade das minhas palavras — e é a pessoa com quem estou discutindo; o sufrágio dela eu sei recolher; mas com os muitos nada tenho a ver”. Uma única testemunha: o interlocutor, chamado a examinar as próprias respostas. Com os muitos, nada: a quantidade de espectadores não demonstra uma conclusão. Sócrates recusa contar votos. A verdade não se decide pela plateia. Uma multidão pode aplaudir um erro com excelente entusiasmo.
O que Sócrates queria dizer?
Notem bem a distinção. O mal que me fazem pode atingir meu corpo, minha reputação, meus bens. São perdas reais, às vezes terríveis. O mal que faço atinge minha alma, aquilo que sou enquanto pessoa capaz de conhecer e escolher. Ao mentir deliberadamente, torno-me autor da mentira. Ao humilhar por prazer, exercito a crueldade. Quem sofre injustiça perde algo; quem a comete perde-se. Esta última expressão indica uma corrupção moral, não uma condenação sem remédio.
Daí a tese ainda mais desconcertante: o culpado que escapa ao castigo é mais infeliz do que aquele que o recebe. A introdução de nossa edição condensa a razão: “porque o castigo cura”. Ora, a comparação é com um tratamento. A pena justa enfrenta a desordem que a impunidade conserva. Isso não torna boa qualquer punição, nem autoriza a crueldade do julgador. O argumento exige justiça: corrigir o culpado, e não satisfazer o gosto de fazê-lo sofrer.
A tradição cristã reconheceu nessa prioridade da alma uma antecipação: a ordem moral não depende do aplauso. O argumento filosófico permanece acessível também a quem não compartilha dessa tradição. Basta enfrentar a pergunta: obter vantagem torna boa uma ação injusta? O utilitarismo vulgar responde pelo saldo de benefícios. Sócrates pergunta pelo homem que sai dessa conta. É uma razão para voltar aos clássicos: eles examinam os critérios que usamos sem examinar.
O que isso responde hoje?
Voltemos à pessoa diante da tela. Ela pode guardar provas, exigir uma correção, denunciar a agressão e procurar reparação. Nenhuma dessas medidas exige fabricar uma acusação ou convocar um linchamento virtual. A ideia de que quem não revida é fraco confunde força com poder de ferir. A vaidade ajuda na confusão: prefere parecer invencível a agir bem. A plateia, tão generosa em distribuir ordens de ataque, não assumirá a autoria do que nossos dedos publicarem.
A justiça, virtude de dar a cada um o seu, exclui a vingança entendida como retribuição do mal por satisfação pessoal. A fortaleza permite suportar a pressão sem se corromper. A prudência julga o que convém fazer, com quais meios e em qual momento; não conta os votos da plateia. Pode ser necessário responder com firmeza. Pode ser necessário calar por enquanto. O critério é o bem devido, não a intensidade da raiva.
Antes de responder à próxima ofensa, retire os dedos do teclado e pergunte qual dos dois males está prestes a escolher. Escreva depois somente o que puder defender como justo, mesmo sem aplausos. Sêneca retomará, em Sobre a ira, a comparação da ira com uma loucura breve. Será o próximo mestre: depois de distinguir os males, aprender a não entregar à cólera a decisão.
Referências
- Archive Public Domain. Górgias, de Platão: ficha de registro APD-2026-00045-1. Disponível em: archivepublicdomain.com/registry/APD-2026-00045-1/
- Stanford Encyclopedia of Philosophy. Socrates. Disponível em: plato.stanford.edu/entries/socrates/
