Na reunião, alguém propõe esconder uma informação do cliente para salvar um projeto. Há uma diferença entre defender um bem e tomar esse bem como licença para fazer o mal. Mas o proponente prefere encurtar a conversa: o fim justifica os meios. Seria só desta vez. O projeto ajudaria tanta gente. Ao pedir a exceção, seu rosto ganha o brilho de quem se considera capaz de administrar uma liberdade perigosa demais para os outros. A regra continua de pé; ele é que pretende passar por cima.
Onde a frase aparece?
Em Crime e Castigo, Parte III, capítulo V, o juiz de instrução Porfíri comenta um artigo escrito por Raskólnikov. A frase do título não é uma convicção de Dostoiévski. É uma tese a examinar, lida aqui como adversária. Quem a enuncia é Porfíri, resumindo o pensamento do jovem:
“No artigo dele, todos os homens são divididos em “comuns” e “extraordinários”. Os homens comuns têm que viver em submissão, não têm o direito de transgredir a lei, porque, veja bem, são comuns. Mas os homens extraordinários têm o direito de cometer qualquer crime e de transgredir a lei de qualquer forma, justamente porque são extraordinários.”
Vejamos. A primeira frase divide a humanidade. A segunda impõe obediência a uma parte dela. A terceira concede à outra a licença que foi negada à primeira. E qual é o fundamento dessa licença? Ser extraordinário. O privilégio serve de prova do próprio privilégio. Raskólnikov corrige o resumo:
“Eu simplesmente insinuei que um homem “extraordinário” tem o direito… quer dizer, não um direito oficial, mas um direito interior de decidir na própria consciência ultrapassar… certos obstáculos, e apenas caso isso seja essencial para a realização prática da ideia dele (às vezes, talvez, em benefício de toda a humanidade).”
Notem bem. Ele suaviza o alcance: exige que a transgressão seja essencial à ideia. A restrição merece atenção. Entretanto, troca o direito de cometer qualquer crime por um direito interior, e conserva a mesma porta. Quem decidirá se o obstáculo precisa ser removido? A consciência do próprio interessado. A humanidade receberá o benefício; a vítima receberá a conta.
O que Dostoiévski queria mostrar?
A distinção central está entre ter um direito e sentir-se autorizado por si mesmo. A consciência deve julgar nossos atos, mas não fabrica o bem conforme nossas ambições. No raciocínio de Raskólnikov, ela passa a fornecer a sanção para aquilo que a ideia exige. Sai o exame da ideia; entra a autorização para executá-la.
A tese percebe algo real. Reformadores rompem leis herdadas, e uma lei pode ser injusta. O talento raro também pesa: certas realizações exigem capacidades incomuns. Seria preguiça responder que toda desobediência é má ou que todas as capacidades são iguais. Mas romper uma lei injusta exige um critério de justiça superior à lei. Possuir talento não dispensa esse critério. A excelência de uma inteligência não transforma outra pessoa em material disponível.
O próprio Raskólnikov admite, sobre a divisão: “reconheço que é um tanto arbitrária”. Ora, justamente dessa classificação depende a licença extraordinária. Quem distribui as categorias já está interessado em ocupar a mais confortável. Podemos chamar o erro de utilitarismo de exceção: um benefício projetado autorizaria o dano presente, desde que praticado pelo homem supostamente superior. A vaidade completa o serviço, nomeando esse homem e entregando-lhe o cargo de juiz em causa própria.
O romance inteiro refuta Raskólnikov pela experiência que a teoria pretendia governar. O crime não o liberta; dilacera-o. Dostoiévski põe a construção intelectual diante de uma pessoa que precisa viver com o que fez. Eis uma razão para perguntar por que os clássicos nunca envelhecem: nossas desculpas encontram neles um examinador paciente.
O que isso responde hoje?
Voltemos à reunião. Salvar o projeto pode ser um bem. Esconder do cliente uma informação necessária à sua decisão continua sendo uma injustiça. O benefício desejado precisa orientar a procura de meios honestos. Quando vira salvo-conduto, já não estamos discutindo somente o projeto: estamos concedendo ao seu defensor uma superioridade moral sem exame.
As virtudes cardeais oferecem perguntas precisas. A justiça exige a mesma regra para todos, inclusive para mim. A prudência desconfia do julgamento de quem tem interesse na sentença. A temperança modera o orgulho da própria ideia. A fortaleza aceita o caminho mais longo e limpo, mesmo quando ele custa prestígio. Nenhuma delas promete o conforto de estar sempre certo.
Diante de um atalho que só se sustenta porque você se considera diferente, apresente o caso a uma pessoa de confiança e ouça-a antes de agir. Leia também Crime e Castigo até o fim: acompanhe onde a teoria desemboca. Sêneca dirá, em Sobre a tranquilidade da alma, que há quem não suporte a solidão. Será nosso próximo mestre. Até lá, permita que alguém examine a desculpa que, sozinho, você já aprovou.
Referências
- Archive Public Domain. Crime e Castigo, de Fiódor Dostoiévski: ficha de registro APD-2026-00027-9. Disponível em: archivepublicdomain.com
- Britannica. Fyodor Dostoyevsky. Disponível em: britannica.com
