Hugo de São Vítor: “Aprende tudo: depois verás que nada é supérfluo”

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Imagem: Renata Cabral/Ler Livros

Conhecer bem uma especialidade é uma coisa; julgar que ela basta para compreender um problema é outra. Um engenheiro competente apresenta o projeto de uma escola e é chamado a discutir a circulação das crianças com uma professora. Conhece as medidas, mas não entende o vocabulário com que ela descreve as dificuldades dos alunos. Por um instante, pensa em declarar que aquilo não é com ele. A tentação seguinte é pior: considerar irrelevante o que não aprendeu. Sua competência permanece; o limite dela acaba de aparecer.

Onde a frase aparece?

No Livro VI, capítulo III, do Didascálicon, Hugo de São Vítor, mestre cristão do século XII, aconselha o estudante sobre o modo de ler e estudar. As palavras pertencem ao corpo da obra: “Aprende tudo: depois verás que nada é supérfluo.” Logo depois: “Um conhecimento estreito não é agradável.” Vejamos. O imperativo pede disposição para aprender. O “depois” exige paciência: o estudante nem sempre percebe, ao começar, a relação entre aquilo que estuda e aquilo que deseja compreender.

A segunda frase acrescenta um juízo sobre a experiência de conhecer. “Um conhecimento estreito não é agradável.” Quem só admite perguntas já familiares acaba diminuindo o próprio prazer de aprender. Tudo precisa caber no mesmo molde. O assunto novo comparece diante de uma banca examinadora bastante curiosa: será julgado por alguém que ainda não o conhece.

O início do capítulo fornece a chave: “Algumas coisas devem ser conhecidas por si mesmas. Outras, embora por si não pareçam dignas de nosso trabalho, de modo algum devem ser negligenciadas, porque sem elas não se podem compreender claramente as primeiras.” A primeira frase estabelece uma ordem: há conhecimentos que procuramos pelo que eles próprios nos dão a compreender. A segunda mostra uma dependência: para alcançá-los, precisamos também de conhecimentos cujo valor inicialmente nos escapa.

O que Hugo queria dizer?

Notem bem a expressão “não pareçam”. A aparência de inutilidade pertence ao nosso julgamento inicial; não constitui uma sentença definitiva sobre a matéria. Quem deseja ler um poema pode impacientar-se com a gramática. Mas uma relação entre palavras, mal compreendida, altera o pensamento inteiro. O trabalho que parecia lateral permite chegar ao centro. A distinção de Hugo preserva tanto o fim do estudo quanto os meios necessários para alcançá-lo.

Isso não recomenda erudição vazia nem curiosidade dispersa. Colecionar informações para vencer conversas é um serviço prestado à vaidade. O saber é um corpo cujas partes se explicam umas às outras. Uma leitura de Machado de Assis, por exemplo, pode pedir atenção à linguagem, aos costumes e aos conflitos morais das personagens. Estudamos essas relações para ler melhor a obra, conservando diante dos olhos aquilo que buscamos compreender.

Ora, “nada é supérfluo” não significa que todos os assuntos tenham o mesmo valor ou devam receber o mesmo tempo. Significa, à luz da distinção anterior, que não devemos desprezar aquilo de que depende a compreensão do que importa. Tampouco se exige que alguém domine todas as disciplinas. Exige-se abertura para reconhecer uma necessidade. O conhecimento estreito empobrece o gosto de saber porque interrompe esse movimento: prefere a segurança do conhecido à descoberta de suas relações.

O que isso responde hoje?

Voltemos ao engenheiro. Ele não precisa tornar-se professor para realizar seu trabalho. Precisa, porém, compreender o bastante da atividade escolar para que suas decisões respondam ao uso do edifício. O erro chama-se especialismo: tomar a parte pelo todo. A especialização oferece competência; o especialismo atribui a essa competência uma suficiência que ela não possui. Acrescente-se a vaidade de quem se contenta com o próprio canto, e até uma pergunta do colega passa a parecer uma intromissão.

As quatro virtudes cardeais ajudam a corrigir essa atitude. A prudência pede que vejamos o que está ligado a quê antes de decidir. A temperança modera a pressa de estudar somente o que oferece serventia imediata. A fortaleza sustenta o esforço de aprender uma matéria difícil cujo retorno ainda não aparece. A justiça dá a cada saber seu lugar e reconhece a contribuição do colega. Nenhuma delas dispensa o conhecimento técnico. Todas impedem que ele se feche sobre si mesmo.

Escolha esta semana uma matéria vizinha da sua e estude-a meia hora por dia, sem exigir utilidade imediata. Anote os termos desconhecidos e procure compreendê-los antes de julgar o assunto. Chesterton dirá, em Ortodoxia, que o louco é o homem que perdeu tudo, menos a razão. Será nosso próximo mestre. Até lá, dê à sua razão algo que ela ainda não sabe.


Referências

  • Archive Public Domain. Didascálicon, de Hugo de São Vítor: ficha de registro APD-2026-00061-8. Disponível em: archivepublicdomain.com
  • Britannica. Hugh of Saint Victor. Disponível em: britannica.com
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Filósofo e articulista. Escreve como quem conversa à mesa, com ironia e franqueza, sobre o que a filosofia perdeu quando deixou de buscar a verdade. Para ele, pensar é resistir à confusão do tempo presente — é manter acesa a chama da lucidez num mundo que já se acostumou à mentira. Em seus textos, fala ao leitor como a um amigo, provocando-o a não ter medo de ver as coisas como realmente são.