Um rapaz espera a hora da missa na sala de uma casa. Uma mulher aparece, os dois conversam, e aquilo que parecia simples demora se torna uma lembrança impossível de esclarecer. Em Missa do Galo, a celebração religiosa permanece fora de cena durante quase todo o conto; dentro da casa, ficam os gestos, as palavras incompletas e a atenção perturbada de Nogueira. Começo por essa sala porque ela me parece uma boa entrada para a pergunta sobre o cristianismo de Machado de Assis: o que seus textos permitem conhecer, e o que deixam fechado?
Há uma resposta biográfica limitada, mas necessária. Machado foi batizado católico, casou-se com Carolina Xavier de Novais, em 1869, em cerimônia católica e teve enterro com rito católico. Esses fatos situam uma vida dentro de práticas religiosas. Não bastam, porém, para reconstituir a intimidade de uma crença. Sua reserva sobre o assunto impede que transformemos registros públicos em profissão de fé. Também não autoriza a conclusão inversa: o silêncio de alguém não é um documento de descrença.
Ao voltar à vida e à obra de Machado de Assis, prefiro conservar essa diferença. Podemos reconhecer a presença extensa da tradição cristã em sua literatura sem lhe emitir um certificado religioso. Minha hipótese de leitura é que Machado não escreve como crente nem como descrente encarregado de demonstrar uma tese. Escreve como alguém que conhece profundamente uma consciência moral formada pelo cristianismo e observa personagens que raramente conseguem estar à altura dela.
A distância entre a regra e o gesto
Em Missa do Galo, essa distância pede delicadeza. Nogueira conta uma experiência da juventude sem resolver o sentido da conversa com Conceição. O leitor pode perceber desejo, solidão, curiosidade, talvez uma aproximação de que os próprios envolvidos não tenham inteira consciência. Mas perceber possibilidades não equivale a provar intenções. A missa marca a noite e a expectativa do rapaz; o diálogo expõe uma região da experiência humana que a simples menção de uma regra não torna transparente.
Seria pobre ler o conto como denúncia automática da religião ou como lição edificante sobre a tentação. Sua força está na dificuldade de julgar com segurança. A memória não recupera tudo, a linguagem não entrega tudo, e um narrador pode reconhecer a própria incompreensão. Há prudência a aprender nessa forma: resistir ao prazer de completar a vida alheia com aquilo que imaginamos saber. A literatura exige aqui uma atenção que também é responsabilidade moral.
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, o problema muda de posição. O morto que narra sua vida parece ter conquistado liberdade para dizer o que os vivos escondem. Isso não faz dele um juiz confiável. Brás Cubas zomba dos outros, de suas próprias ambições e dos expedientes com que se protegeu. Sua franqueza pode ser mais um modo de vaidade: até a confissão dos defeitos serve à composição de uma figura interessante.
É essencial distinguir esse narrador do escritor que o construiu. O desdém de Brás não pode ser recolhido como declaração pessoal de Machado. O romance nos deixa ouvir a desenvoltura de quem dispõe da dor dos outros e encontra palavras elegantes para diminuir a própria responsabilidade. Leio aí uma pergunta incômoda: reconhecer uma falta significa corrigi-la? A inteligência pode iluminar a consciência; também pode trabalhar longamente na fabricação de desculpas.
Em Dom Casmurro, a promessa de Dona Glória destina Bentinho ao seminário antes que ele possa escolher esse caminho. A religião pertence à organização concreta da família, aos compromissos da mãe e ao futuro imaginado para o filho. Esse dado não resume o romance nem resolve o retrato da fé que ele contém. Bentinho crescerá e contará sua história procurando conduzir nosso julgamento. A questão moral inclui o poder de quem narra sobre uma pessoa que não dispõe do mesmo espaço para responder.
Quando o acompanho, preciso vigiar minha própria disposição para aceitar uma acusação bem contada. Sofrimento não é prova, convicção não é conhecimento, e uma lembrança dolorosa pode ser organizada para favorecer quem a apresenta. O romance põe à prova nosso senso de justiça. Se a formação religiosa de Bentinho importa, importa também a diferença entre ter recebido uma educação moral e agir com justiça diante de alguém que se teme perder.
A Igreja do Diabo dá forma de fábula a outra contradição. Ao fundar sua igreja, o Diabo pretende substituir as virtudes pelos vícios e estabelecer uma ordem coerente com essa inversão. Descobre, contudo, que seus seguidores praticam às escondidas ações boas. O desejo humano escapa até à disciplina do mal. A ironia impede uma divisão confortável entre pessoas inteiramente virtuosas e pessoas inteiramente corrompidas; tampouco permite supor que conhecer o bem assegure praticá-lo.
Por isso, o leitor cristão encontra nesses livros matéria para examinar a vaidade, a hipocrisia e o autoengano, faltas familiares ao catecismo. O leitor sem fé encontra a mesma exigência de honestidade consigo. Nenhum dos dois precisa converter Machado em porta-voz. Para quem procura livros de Machado de Assis por onde começar, esses contos e romances oferecem algo exigente: companhia para desconfiar das justificativas que mais nos agradam.
A pergunta sobre a fé de Machado conserva seu interesse histórico, mas os livros não abrem por completo essa porta. Abrem outra, menos confortável, voltada para quem os lê. Ao fechar um deles, posso continuar sem saber o que o escritor acreditava na intimidade. Já não tenho a mesma facilidade para ignorar o que faço com aquilo em que eu própria digo acreditar.
Referências
- Academia Brasileira de Letras. Machado de Assis: biografia. Disponível em: academia.org.br
- Portal Domínio Público. Obra de Machado de Assis. Disponível em: dominiopublico.gov.br
- Brasil Escola. Machado de Assis. Disponível em: brasilescola.uol.com.br
- Fundação Casa de Rui Barbosa. Edições críticas de obras de Machado de Assis. Disponível em: gov.br/casaruibarbosa
