Razão e Sensibilidade e a arte de amar bem

7min de leitura
Imagem: Renata Cabral/Ler Livros

Marianne ao piano, Elinor calada, a sala pequena de Barton Cottage: há pouco espaço ali, mas cabe uma vida inteira de expectativas. Quando volto a Razão e Sensibilidade, o filme de Ang Lee, penso no que faz essa história emocionar também quem nunca abriu um livro de Jane Austen. Talvez seja o reconhecimento de uma dificuldade comum: sentir muito por alguém não nos ensina, por si só, a lhe fazer bem.

O filme de 1995 tem roteiro de Emma Thompson, premiado com o Oscar de melhor roteiro adaptado em 1996. Ela também interpreta Elinor, ao lado de Kate Winslet como Marianne, Hugh Grant como Edward Ferrars e Alan Rickman como o coronel Brandon. Voltei do filme ao romance de 1811 procurando entender melhor aquela irmã que parece suportar tudo. Encontrei alguém que sofre, julga, hesita e escolhe o que fazer com o sofrimento.

Sobre Elinor, lemos no primeiro capítulo: “Tinha um coração excelente; sua índole era afetuosa, e seus sentimentos eram fortes; mas sabia governá-los: era um saber que a mãe ainda tinha de aprender, e que uma de suas irmãs resolvera jamais aprender.” A força dos sentimentos vem antes do governo deles. Austen toma esse cuidado, e ele muda nossa leitura: a serenidade de Elinor custa alguma coisa.

Marianne reconhece depressa em Willoughby o encanto que deseja encontrar. Entrega ao sentimento uma autoridade que ele ainda não pode ter: a de garantir o caráter de outra pessoa. Entendo sua pressa. Ser compreendido parece uma prova suficiente de amor quando desejamos muito ser compreendidos. Mas gostar das mesmas coisas, comover-se junto e saber agradar ainda dizem pouco sobre como alguém age quando precisa perder alguma coisa para cumprir um dever.

O peso de uma promessa

Edward oferece uma medida mais difícil. Mantém o antigo noivado com Lucy Steele mesmo amando Elinor, porque deu sua palavra. O filme conserva esse conflito, sem tornar agradável o que é doloroso. Podemos reconhecer a imprudência de um compromisso e ainda compreender que a mudança de sentimento não apaga automaticamente a responsabilidade por ele. Uma promessa permite que outra pessoa organize a própria vida contando conosco.

Elinor, por sua vez, guarda durante quatro meses o segredo que Lucy lhe confiou. Quando Marianne descobre o que a irmã suportou, pergunta, no capítulo XXXVII: “— Quatro meses! — exclamou Marianne de novo. — Tão calma! tão alegre! Como conseguiu se sustentar?” A resposta é precisa: “— Sentindo que cumpria o meu dever. Minha promessa a Lucy me obrigava ao segredo.”

Logo adiante, Elinor explica: “Sim. Mas eu não amava só a ele; e, enquanto o sossego dos outros me era caro, alegrava-me em poupá-los de saber o quanto eu sentia.” Sempre paro nessa passagem. A mãe, a irmã, os amigos continuam existindo enquanto ela sofre por Edward. Seu amor tem intensidade, mas também tem extensão: alcança pessoas que poderiam desaparecer de sua atenção se a dor ocupasse tudo.

Não tomo esse silêncio como receita para todo sofrimento. Pedir ajuda também exige discernimento. O que me interessa é a liberdade com que Elinor recusa fazer de sua aflição a única medida da casa. Governar o sentimento significa poder escolher uma ação mesmo quando o coração pede outra. A temperança, aqui, tem o rosto concreto de uma irmã que ainda consegue cuidar.

Willoughby segue a direção contrária. Seu encanto não resiste ao momento em que o dinheiro pesa mais. O narrador formula o juízo com dureza: “O mundo o fizera extravagante e vaidoso; a extravagância e a vaidade o haviam feito frio de coração e egoísta.” Há uma sequência de hábitos nessa frase. A maneira de viver prepara a maneira de amar; o egoísmo não aparece somente no instante da fuga.

Brandon se deixa conhecer pelo que faz. Vai buscar a mãe de Marianne, cuida, espera, não exige retribuição. Na convalescença, a leitura em voz alta ganha, com Rickman, uma delicadeza que me acompanha depois do filme. Marianne aprende a reconhecer um bem cuja presença não depende do brilho imediato. Esperar, para ele, não significa adquirir direitos sobre ela; o cuidado vale antes de qualquer resposta.

O começo de uma casa

É por isso que a corte, entendida como tempo de conhecer o caráter, ainda tem algo a ensinar. Dispenso a nostalgia do figurino. Interessam-me as ocasiões de observar como alguém trata os outros, recebe uma contrariedade e responde pelo que prometeu. Esse tempo protege a escolha. A liberdade precisa de conhecimento para não ficar entregue à impressão mais agradável.

No horizonte cultural cristão que forma o mundo de Austen, o matrimônio envolve fidelidade, família, educação dos filhos e uma vida comum orientada ao bem. O casamento começa uma casa cujas responsabilidades ultrapassam os dois. Esse horizonte não impede que o romance exponha interesses de dinheiro e posição. Justamente por isso, importa distinguir um vínculo digno das conveniências que podem deformá-lo. Qualquer leitor pode reconhecer a diferença entre satisfazer um desejo e tornar-se alguém com quem se pode contar.

Saio dessa história querendo conhecer antes de prometer, prometer apenas o que pretendo cumprir e governar o que sinto sem fingir que não sinto. Quem chegou pelo filme pode continuar com Jane Austen no romance, em domínio público e disponível em português atual no acervo da casa. Entre os clássicos, ele guarda uma pergunta para a vida cotidiana: quando o encanto já tiver sido reconhecido, haverá caráter para sustentar a casa?


Referências

  • Archive Public Domain. Razão e Sensibilidade, de Jane Austen: ficha de registro APD-2026-00047-7. Disponível em: archivepublicdomain.com
  • Britannica. Jane Austen. Disponível em: britannica.com
  • Britannica. Sense and Sensibility (film by Lee). Disponível em: britannica.com
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Ensaísta e professora de literatura. Escreve sobre o valor formativo da leitura e o papel do livro como espaço de silêncio, contemplação e permanência em uma época marcada pela pressa e pela superficialidade. Em seus textos, reflete sobre como a leitura educa o olhar, purifica a sensibilidade e ensina o homem a habitar o tempo com mais profundidade.