O cinema começa às sete, o shopping fecha mais tarde, e alguém sugere ficar no sofá, escolhendo um filme na tela. Podemos imaginar a conversa numa família que acaba de descobrir no calendário o Dia Nacional da Cultura. É feriado? Não. Nesta quinta-feira, 5 de novembro, há trabalho, escola, louça e tarefa de matemática. A data parece pedir uma programação especial, mas talvez peça primeiro outra pergunta: o que estamos cultivando nesta casa?
Instituído por lei em 1970, o Dia Nacional da Cultura coincide com o aniversário de Rui Barbosa, nascido em 1849. A homenagem permite lembrar o leitor e o defensor da instrução pública, além do nome conhecido das ruas e escolas. Sua biblioteca, preservada pela Fundação Casa de Rui Barbosa, dá uma dimensão material desse vínculo com os livros. Há uma diferença entre admirar uma estante e aceitar o trabalho que ela propõe: abrir um volume, permanecer diante dele, voltar ao que não se entendeu.
A palavra cultura guarda uma pista. Vem do latim colere, cultivar, verbo ligado ao cuidado do campo e também à origem da palavra culto. Não precisamos transformar a sala em lavoura para compreender a aproximação. Quem planta sabe que escolher a semente é só o começo. Há espera, atenção, repetição. Na formação de uma pessoa, também não basta oferecer uma experiência bonita e passar à seguinte. Alguma coisa precisa criar raízes.
Por isso, desconfio quando a celebração da cultura se resume a uma agenda de consumo. Comprar ingressos pode sustentar um trabalho excelente; assistir a um filme pode nos fazer pensar durante semanas. O problema está em medir a vida cultural pela quantidade de atrações percorridas. Conheço a tentação: preencher o sábado das crianças e acreditar que a formação ficou resolvida. Mas o que elas puderam observar, perguntar, guardar?
O entretenimento tem seu lugar. Rir de uma comédia depois de um dia difícil não exige defesa nem desculpa. O descanso ajuda a recuperar a disposição para os outros. Tampouco há uma fronteira fixa entre divertir e formar: uma boa história pode fazer as duas coisas. A distinção que me interessa está na relação que estabelecemos com ela. Procuramos somente ocupar o intervalo ou aceitamos que uma obra nos ensine a prestar atenção?
O cuidado que se torna hábito
Gosto de pensar nas quatro virtudes cardeais como uma cultura da alma. A expressão pode parecer distante da rotina, mas seu conteúdo cabe numa cozinha ou numa sala de aula. Prudência é avaliar a realidade antes de agir, como quem ouve os dois filhos antes de decidir o que aconteceu. Justiça é dar a cada um o que lhe é devido, inclusive reconhecer o trabalho do colega numa tarefa feita em conjunto.
Fortaleza é sustentar o bem diante da dificuldade, como o aluno que admite ter errado mesmo sabendo que haverá consequência. Temperança é dar medida aos desejos, como quem interrompe o próprio uso do celular para escutar alguém. Não são qualidades reservadas a uma religião ou a pessoas excepcionais. A razão permite reconhecer o valor desses gestos; praticá-los, porém, exige mais esforço do que aprová-los numa conversa.
O filósofo Josef Pieper, católico, dedicou livros às virtudes e à relação entre ócio e vida intelectual. Sua reflexão ajuda a questionar a pressa de exigir utilidade imediata de tudo. Ler sem prova marcada, olhar uma pintura sem fotografá-la, conversar sem produzir uma conclusão: há atividades cujo valor depende de lhes concedermos tempo. Para pais e professores, isso implica suportar até aquele silêncio em que parece que nada está acontecendo.
Os livros oferecem uma das formas mais antigas e baratas de conversar com pessoas que, em alguma coisa, viveram melhor que nós. Também nos apresentam a quem falhou, se enganou ou causou sofrimento. Ler não torna ninguém bom por decreto. Uma personagem não é um modelo obrigatório. Mas acompanhar suas escolhas pode alargar nosso julgamento: percebemos uma desculpa conveniente, o preço de uma omissão, a coragem de reparar um dano.
Hoje, uma família pode começar sem gastar. Pode visitar uma biblioteca, conforme o horário de funcionamento, ou escolher um clássico em domínio público. Pode experimentar ler em voz alta para uma criança, dez minutos, com o telefone afastado. Não é preciso terminar o capítulo. Uma pergunta da criança talvez mereça mais tempo que a página seguinte. O adulto também pode dizer que não sabe e combinar uma busca para amanhã.
Aos professores, proponho uma tarefa pequena: pedir aos alunos que perguntem em casa qual livro marcou os avós. Se eles não estiverem presentes, vale ouvir outro adulto próximo; se não houve livros, vale perguntar por uma história lembrada. Essas respostas podem abrir espaço para conhecer vidas que a rotina deixa encobertas. Depois, cada turma pode escolher uma leitura para compartilhar. A data terá servido se, amanhã, alguém puxar uma cadeira para continuar a conversa.
Referências
- Fundação Casa de Rui Barbosa. Acervo e informações sobre Rui Barbosa. Disponível em: gov.br/casaruibarbosa
- PIEPER, Josef. As virtudes fundamentais.
- PIEPER, Josef. Ócio e vida intelectual.
- Ministério da Cultura. Informações institucionais sobre cultura. Disponível em: gov.br/cultura
- Brasil Escola. Conteúdos sobre cultura e o Dia Nacional da Cultura. Disponível em: brasilescola.uol.com.br
