Todo novembro a mesma cena se repete nas escolas: um cartaz com o rosto de Zumbi, uma aula sobre Palmares, uma atividade sobre o 20 de novembro. Está certo que seja assim. Zumbi morreu em 20 de novembro de 1695, e a data lembra que houve gente disposta a pagar com a vida pela própria liberdade. Mas, ano após ano, percebo que meus alunos saem de novembro conhecendo um único nome. E a história dos brasileiros negros tem muitos.
Há uma forma de contar essa história em que a população negra aparece sempre do mesmo jeito: sofrendo ou se revoltando. É uma parte verdadeira, mas é uma parte. Falta nela o que mais me interessa como professora: homens e mulheres que, nas condições mais injustas que este país já produziu, escolheram a fé, o trabalho, o estudo e a lei, e com isso fizeram algo justo que ficou de pé. Eles não cabem em um cartaz. Cabem em um ano letivo inteiro.
Os que construíram pela fé e pelo ofício
Comece pelo século XVII, antes mesmo de Palmares cair. Henrique Dias, homem negro nascido em Pernambuco, comandou tropas na guerra contra a ocupação holandesa e foi reconhecido pela Coroa portuguesa por isso. Não pegou em armas contra a ordem de seu tempo; defendeu a terra em que vivia, e durante séculos regimentos inteiros levaram seu nome. É um bom começo de conversa com alunos que acham que coragem e disciplina são coisas opostas.
Nas Minas Gerais do século XVIII, Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, filho de um arquiteto português e de uma mulher africana escravizada, esculpiu os profetas de Congonhas e boa parte do que há de mais belo nas igrejas barrocas do país. Fez isso doente, com as mãos já comprometidas, trabalhando até o fim. Quem visita o santuário do Bom Jesus de Matosinhos vê o que a fé e o talento de um homem negro deixaram para todos os brasileiros.
No Rio de Janeiro da virada para o século XIX, o padre José Maurício Nunes Garcia, neto de africanos, compôs missas e peças sacras que a corte de D. João VI ouviu na Capela Real. Foi mestre de capela, professor e sacerdote. Sua música ainda é executada. Peço aos alunos que a escutem antes de ler qualquer coisa sobre ele. A obra fala primeiro.
Em Minas, duas vidas simples chegaram aos altares. Francisca de Paula de Jesus, a Nhá Chica, nascida por volta de 1808, viveu em Baependi quase um século inteiro dedicada aos pobres e à oração, sem saber ler, e foi beatificada pela Igreja em 2013. Francisco de Paula Victor, nascido de uma mãe escravizada em Campanha, em 1827, tornou-se padre, abriu escola para crianças pobres e passou a vida como pároco de Três Pontas. Foi beatificado em 2015, no dia 14 de novembro. A data cai justamente no mês em que menos se fala dele.
Os que fizeram justiça pela lei e pelo estudo
Luiz Gama nasceu livre na Bahia em 1830 e foi vendido como escravo pelo próprio pai. Aprendeu a ler já rapaz, provou nos tribunais que sua escravização era ilegal e, sem diploma, passou a advogar pela liberdade de outros. Centenas de pessoas saíram do cativeiro por causa dele, não por um levante, mas porque alguém conhecia a lei e a usou até o fim. Quando um aluno me pergunta para que serve estudar, Luiz Gama é a minha resposta mais curta.
Teodoro Sampaio, nascido em 1855 na Bahia, filho de uma mulher escravizada, formou-se engenheiro, percorreu o interior do país em expedições e, com o próprio salário, comprou a liberdade dos irmãos. Depois ajudou a desenhar cidades e a escrever a geografia do Brasil. André Rebouças, engenheiro como ele, defendeu o fim da escravidão com argumentos e projetos, foi amigo do imperador e o acompanhou no exílio quando a República chegou, por lealdade. Morreu longe, pobre e fiel ao que acreditava.
Já no século XX, o médico baiano Juliano Moreira dirigiu por quase trinta anos o Hospício Nacional e mudou a forma como o país tratava os doentes mentais, retirando correntes e exigindo cuidado onde havia castigo. Não fundou um movimento. Fez o seu trabalho com uma honestidade que o resto do país levou décadas para alcançar.
E há Machado de Assis, neto de escravos alforriados, que sem nunca ter feito discurso construiu a maior obra da literatura brasileira e fundou a Academia Brasileira de Letras. A grandeza dele é tão evidente que, por muito tempo, se preferiu não lembrar de onde ele veio. Lembrar faz parte da justiça.
O que isso muda em sala de aula
Muda a pergunta. Em vez de encerrar novembro perguntando “o que fizeram com eles?”, podemos perguntar também “o que eles fizeram?”. A primeira pergunta é necessária e tem resposta dura. A segunda é a que forma caráter, porque mostra a um jovem que é possível, em qualquer circunstância, escolher o bem, aprender um ofício, cumprir um dever e deixar algo melhor do que se encontrou. Nenhum desses homens e mulheres precisou de um cartaz para existir. Precisaram de fé, de disciplina e de alguém que lhes ensinasse a ler.
Minha proposta para pais e professores cabe no mês que resta: escolham com os jovens um desses nomes, procurem uma biografia na biblioteca ou um texto em domínio público, e leiam juntos. Depois, uma única pergunta para a conversa: o que essa pessoa fez de justo, e o que custou a ela? Quando o cartaz de Zumbi sair da parede, em dezembro, essa pergunta ainda terá lugar à mesa.
Referências
- BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003 (ensino de história e cultura afro-brasileira). Disponível em: planalto.gov.br
- BRASIL. Lei nº 14.759, de 21 de dezembro de 2023 (Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra como feriado). Disponível em: planalto.gov.br
- Fundação Cultural Palmares. Disponível em: gov.br/palmares
- Academia Brasileira de Letras. Machado de Assis: biografia. Disponível em: academia.org.br
- Academia Brasileira de Música. Padre José Maurício Nunes Garcia (patrono). Disponível em: abmusica.org.br
- IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, Congonhas (MG). Disponível em: gov.br/iphan
- Fiocruz – Casa de Oswaldo Cruz. Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil: Juliano Moreira. Disponível em: dichistoriasaude.coc.fiocruz.br
- Vatican News. Beatificações de Nhá Chica (2013) e Padre Victor (2015). Disponível em: vaticannews.va
- Brasil Escola. Biografias: Henrique Dias, Luiz Gama, André Rebouças, Teodoro Sampaio. Disponível em: brasilescola.uol.com.br
- SCHWARCZ, Lilia Moritz; GOMES, Flávio (orgs.). Dicionário da escravidão e liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018.
- GOMES, Laurentino. Escravidão. 3 volumes. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019–2022.
