Você termina um romance policial, fecha o aplicativo e recebe a indicação de outro romance policial. Na capa, outra rua escura. Na apresentação, outro segredo enterrado. O sistema acertou. Você gosta daquilo. Compra, lê, recebe mais um. Ao fim de alguns meses, mudou de cidade, de assassino e de investigador sem sair do mesmo lugar. A loja chama isso de descoberta. Eu chamaria de boa administração do estoque, com a gentileza de usar o seu nome.
Não há crime nessa operação, nem sequer um mistério digno dos livros vendidos. Quem gostou de uma coisa pode gostar de outra parecida. Seria absurdo exigir que uma livraria escondesse os romances policiais de quem os procura. O problema começa quando damos à previsão do próximo agrado a autoridade de uma recomendação. São coisas diferentes, embora apareçam sob o mesmo botão.
Quando digo que o algoritmo não recomenda, ele adivinha, não estou falando de magia. Ele calcula uma aposta a partir de sinais: escolhas anteriores, preferências declaradas, relações entre livros e leitores, conforme o serviço. Nem todo sistema funciona do mesmo jeito, e um assistente de inteligência artificial não se reduz ao mecanismo de uma vitrine. Ainda assim, há uma pergunta que atravessa essas ofertas: o que tem mais chance de agradar a este sujeito?
Uma boa recomendação pode começar pela pergunta contrária: o que este sujeito precisa encontrar, embora provavelmente torça o nariz? A diferença parece pequena até alguém colocar na sua mão um livro que você jamais compraria. Aí começa o incômodo. E, às vezes, começa um leitor que ainda não existia.
O direito de indicar o livro errado
Pense num amigo que conhece sua impaciência com romances lentos. Ele lhe empresta justamente um desses, acompanha o gesto com um sorriso suspeito e insiste que você dê uma chance. Não confundiu seu gosto. Está discutindo com ele. Talvez tenha percebido que sua pressa já manda demais na sua vida, inclusive na maneira de acompanhar uma frase. Talvez ache que você está perdendo alguma coisa. Pode estar enganado. A recomendação tem esse risco.
O livreiro que escuta, o professor atento e o amigo inconveniente podem fazer algo semelhante. Não possuem acesso privilegiado à sua alma. Possuem leituras, alguma atenção e a coragem de sustentar um palpite que você poderá cobrar depois. Há uma pessoa do outro lado da indicação. Se o livro for uma chatice, você volta e reclama. A conversa continua, e a discordância passa a fazer parte do conhecimento que um tem do outro.
Claro que também existe o amigo que recomenda o mesmo romance a toda a humanidade. Esse já automatizou o serviço sem precisar de computador. Há professores que confundem formação com obediência e livreiros que precisam vender o que está encalhado. A presença humana não santifica o conselho. Ela permite, porém, uma responsabilidade que a expressão “selecionado para você” costuma prometer sem ter quem a assuma.
Recomendar exige alguma ideia do valor do livro, além da probabilidade de aceitação. Quem recomenda pode dizer: você não vai gostar do começo, mas preste atenção nessa voz. Pode explicar por que vale enfrentar a dificuldade. Pode até admitir que aquele autor o irrita e, apesar disso, merece ser lido. O gosto deixa de funcionar como porteiro e passa a ser assunto da conversa.
Seu histórico não é seu destino
Não vou pedir que ninguém desinstale nada. O próprio Ler Livros publica guias de aplicativos, e faz bem. Uso prático não exige devoção. Uma ferramenta pode ajudar a localizar uma edição, organizar leituras e encontrar autores que desconhecíamos. Também é possível pedir a um assistente sugestões fora das preferências habituais. Seria desonesto afirmar que uma máquina jamais colocará diante de nós um livro transformador. Pode colocar. O encontro, felizmente, não pede certificado de origem.
Minha objeção é à confiança confortável que entregamos ao acerto. Um sistema pode ampliar a variedade das sugestões, mas acertar nosso agrado continua sendo uma medida insuficiente de boa leitura. O livro que muda nosso gosto talvez seja abandonado na primeira tentativa. Talvez receba uma avaliação ruim. Talvez fique meses na mesa, parecendo uma compra infeliz, até que alguma experiência nos permita lê-lo. Como distinguir esse atraso de um simples fracasso?
Há também nossa colaboração com o confinamento. Pedimos algo parecido, recusamos o estranho e depois acusamos a vitrine de falta de imaginação. Ora, convém participar da própria liberdade. Quem só procura confirmar preferências encontrará muita gente, e muito software, disposta a prestar esse serviço. Até a visita a Machado de Assis pode servir para colecionar confirmações, se entrarmos no livro decididos a sair exatamente como entramos.
Eu reservaria uma parte das leituras para indicações que dão vontade de recusar. Sem obrigação de terminar, sem penitência cultural. Apenas concedendo a alguém o direito de enxergar uma possibilidade que meu histórico não registra. Um livro recomendado com razões merece mais atenção do que uma semelhança apresentada com entusiasmo. E quem o indicou merece ouvir minha resposta, inclusive a desagradável.
O melhor algoritmo de leitura ainda é uma pessoa que leu mais do que você e aceita conversar sobre isso. Sobretudo quando ela olha para o livro que você acaba de escolher, hesita um instante e puxa outro da estante.
Referências
- PARISER, Eli. O filtro invisível: o que a internet está escondendo de você. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.
- Instituto Pró-Livro. Retratos da Leitura no Brasil, 6ª edição. Disponível em: prolivro.org.br
- Câmara Brasileira do Livro; Nielsen BookData. Panorama do Consumo de Livros. Disponível em: cbl.org.br
- ASSIS, Machado de. Obra completa em domínio público. Disponível em: dominiopublico.gov.br
