O nome está na placa da escola, mas pode não dizer quase nada aos alunos. Rui Barbosa também aparece em ruas, bibliotecas e praças: uma presença tão familiar que às vezes dispensa a pergunta mais interessante. O que esse homem tinha a dizer sobre a educação de quem passa todos os dias diante de seu nome? Na véspera do Dia Nacional da Cultura, celebrado em 5 de novembro, aniversário de Rui, eu começaria a aula por essa pergunta.
Nascido em Salvador, em 1849, e morto em Petrópolis, em 1923, Rui foi jurista, jornalista, orador e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. São informações necessárias para situá-lo, mas insuficientes para aproximá-lo de uma turma. Uma biografia escolar ganha força quando deixa aparecer um problema concreto. No caso dele, proponho este: o que um país deve oferecer a seus habitantes para que possam aprender?
Como deputado, Rui foi relator dos pareceres sobre a reforma do ensino de 1882–1883. Neles, defendeu a instrução pública como dever do Estado, a educação popular e a formação de professores. Convém prestar atenção às datas: estamos falando do Brasil do século XIX, ainda sob a escravidão. A defesa da educação precisa ser lida dentro desse mundo de direitos profundamente desiguais, sem imaginar que escrever uma proposta fosse suficiente para transformar a realidade.
O que a escola deve a cada aluno
Como professora de história, considero importante distinguir o projeto de sua realização. Um parecer registra ideias, argumentos e escolhas; não comprova que todas as crianças passaram a frequentar boas escolas. Essa diferença ajuda a ler Rui com respeito e critério. Podemos reconhecer a importância do que defendeu e, ao mesmo tempo, perguntar quais obstáculos separavam a defesa da instrução de sua presença na vida das pessoas.
Vejo aí uma questão de justiça, entendida como dar a cada um o que lhe é devido. Se aprender é algo devido ao aluno, a escola deixa de ser um favor concedido a quem teve sorte. A responsabilidade pública alcança as condições do ensino e o preparo de quem ensina. A atenção de Rui à formação de professores torna essa responsabilidade concreta: uma sala aberta exige alguém preparado para conduzir o trabalho que acontece dentro dela.
Há também uma exigência de fortaleza nessa defesa: sustentar uma posição dá trabalho quando ela cobra mudanças, recursos e compromissos. Prefiro apresentar essa virtude aos alunos como disposição para assumir o custo de uma tarefa necessária. No estudo dos pareceres, cabe observar o esforço de elaborar argumentos sobre a educação do país. Admirar um orador é fácil; compreender a responsabilidade de quem precisa fundamentar uma proposta pede mais atenção.
A biblioteca pessoal de Rui, preservada na Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, oferece outra entrada para a conversa. Seus muitos milhares de volumes testemunham a presença dos livros em sua vida. O tamanho de uma coleção, sozinho, não mede a sabedoria de ninguém. Mas esse acervo permite aproximar o personagem do trabalho de leitura e pesquisa que acompanha a formação intelectual. Antes de ser nome de instituição, ele foi leitor.
Essa aproximação ajuda a retirar Rui do pedestal sem diminuir sua importância. A turma pode investigar a relação entre estudar e participar da vida comum. Ler com atenção exercita a capacidade de acompanhar um argumento, perceber uma contradição e pedir razões. Entendo assim a ligação entre leitura e cidadania que sua defesa da instrução nos convida a discutir: aprender oferece instrumentos para julgar e agir com responsabilidade, embora não garanta, por si só, escolhas justas.
Em 1921, impedido pela saúde de comparecer, Rui enviou aos formandos da Faculdade de Direito de São Paulo o discurso conhecido como Oração aos Moços. Ali está a frase: “Justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualificada e manifesta”. Seu contexto é o da responsabilidade jurídica. Em aula, eu preservaria esse contexto antes de propor qualquer aproximação com outras experiências: o tempo de uma instituição tem consequências na vida de quem depende dela.
Para marcar o 5 de novembro, minha proposta aos professores é ler um trecho curto desse discurso com a turma, ajustando a escolha à idade dos alunos. Primeiro, esclarecer o vocabulário; depois, pedir que expliquem o argumento com suas palavras e discutam suas razões. As obras de Rui estão em domínio público, o que facilita procurar textos para esse trabalho. Às famílias, sugiro uma visita virtual à Casa de Rui Barbosa, começando pelo acervo de livros. Cada estudante pode voltar à aula com uma pergunta. Um nome na fachada começa a ensinar quando alguém interrompe a passagem para perguntar quem foi seu dono.
Referências
- Fundação Casa de Rui Barbosa. Acervo e informações institucionais sobre Rui Barbosa. Disponível em: gov.br/casaruibarbosa
- Academia Brasileira de Letras. Rui Barbosa. Disponível em: academia.org.br
- BARBOSA, Rui. Oração aos Moços. Senado Federal. Disponível em: senado.leg.br
- Ministério da Educação. Portal Domínio Público. Disponível em: dominiopublico.gov.br
- Brasil Escola. Rui Barbosa. Disponível em: brasilescola.uol.com.br
