Um homem perde o caminho e se vê numa selva escura. Antes que apareçam os condenados, as chamas ou os círculos subterrâneos, a Comédia de Dante começa com esse embaraço reconhecível: não saber como se chegou ali, nem por onde sair. Gosto de pensar que essa é a primeira hospitalidade do poema. Sua construção imensa, com lugares destinados às almas e uma ordem que alcança o universo, abre-se pela experiência de alguém que já não consegue orientar os próprios passos.
Dante Alighieri nasceu em Florença, em 1265, e morreu em Ravena, em 1321, no exílio. Foi afastado de sua cidade que escreveu a Comédia, nas primeiras décadas do século XIV. O adjetivo Divina, pelo qual a conhecemos, veio da posteridade. Há algo comovente nessa distância entre o homem sem lugar em sua terra e o poeta que procura compreender o lugar de cada coisa. A perda da cidade não explica sozinha o livro, mas ajuda a perceber quanto pesa, nele, a pergunta pelo destino.
São cem cantos, distribuídos entre Inferno, Purgatório e Paraíso, escritos em tercetos encadeados, a chamada terza rima. As rimas ligam uma estrofe à seguinte, fazendo a forma avançar por vínculos sucessivos. Dante escolheu o toscano, em vez do latim: uma decisão que tornou a obra fundadora da língua italiana literária. Quem abre uma tradução encontra, assim, dois trabalhos sobrepostos: o do poeta que deu alcance extraordinário à sua língua e o de quem procura oferecer essa construção a outra.
Um mapa de escolhas humanas
A viagem é feita pelo próprio Dante, personagem do poema, através dos três reinos dos mortos. Virgílio o guia primeiro; Beatriz assume depois essa condução. O viajante pergunta, teme, se compadece, hesita. Não atravessa uma exposição de exemplos já resolvidos para seu conforto. Encontra pessoas cujas palavras podem seduzir e cuja dor pode desarmar seu julgamento. É nessa diferença entre o que sente diante de alguém e o que precisa compreender que a leitura ganha espessura.
Creio que a Comédia continua sendo lida porque leva inteiramente a sério a ordem moral do mundo. Cada escolha tem consequência e lugar. Para um leitor habituado a ouvir que tudo depende do ponto de vista, esse desenho pode causar estranheza. Também pode oferecer um mapa: os atos permanecem ligados a quem os praticou, mesmo quando essa ligação é dolorosa. A liberdade, aqui, tem peso. O que fazemos não se desprende de nós como uma roupa deixada sobre a cadeira.
Isso não exige que aceitemos sem exame cada sentença do poeta. Dante escreve com suas convicções, suas lealdades e suas feridas. Há julgamentos que pedem contexto e outros que provocam resistência. A força da obra permite essa conversa. Entre as razões pelas quais os clássicos continuam a nos interpelar está a possibilidade de encontrar uma inteligência que não organiza o mundo segundo nossas preferências. Ler também é suportar por algum tempo uma pergunta cuja resposta não controlamos.
O poema é profundamente cristão. Essa fé constitui sua arquitetura: sustenta a relação entre culpa, arrependimento, purificação e felicidade. Tratá-la como detalhe dispensável seria retirar os degraus de uma escada e esperar que ela ainda nos conduzisse ao alto. Quem não partilha a fé de Dante pode reconhecer a seriedade com que ele trata a responsabilidade. Pode também perceber que o Purgatório, entre a condenação e a plenitude, dá forma à possibilidade de mudança, ao esforço de aprender a desejar melhor.
Entrar pelo primeiro canto
Eu começaria pelo Inferno, a parte mais narrativa, sem exigir de mim a compreensão imediata de cada referência. Um canto por vez, com as notas, é uma medida suficiente. Convém ler primeiro para acompanhar a cena e recorrer às explicações quando um nome ou uma circunstância impedir o entendimento. Depois, voltar ao trecho. As notas ajudam a reconhecer as pessoas e as disputas que o poeta supõe conhecidas; não precisam interromper cada movimento da leitura.
O canto I oferece a selva escura e a dificuldade de encontrar uma saída. No III, a porta do Inferno torna concreta a passagem para uma condição terrível. O V apresenta Paolo e Francesca: a beleza do relato amoroso põe à prova nossa disposição de distinguir compaixão e absolvição. No XXVI, Ulisses dá ao desejo de conhecer uma grandeza inquietante, inseparável da pergunta pelos limites. No XXXIII, Ugolino faz a violência chegar ao leitor pela fome e pelo vínculo entre pai e filhos. São pontos de atenção, não atalhos que dispensem o percurso.
Para ler em português, há a tradução integral em verso de Italo Eugenio Mauro, publicada pela Editora 34. O texto italiano original está em domínio público; traduções brasileiras recentes têm direitos próprios. Essa distinção importa ao procurar uma edição. Eu escolheria um volume com notas e lhe reservaria tempo, sem transformar os cem cantos numa prova de resistência. A escada do poema começa naquele homem desorientado. Talvez o primeiro passo seja admitir, com ele, que conhecer o caminho exige perguntar aonde nossos passos estão levando.
Referências
- Encyclopaedia Britannica. Dante Alighieri. Disponível em: britannica.com
- Società Dantesca Italiana. Site institucional. Disponível em: dantesca.it
- ALIGHIERI, Dante. A divina comédia. Tradução de Italo Eugenio Mauro. Editora 34. Disponível em: editora34.com.br
