O café ainda está quente quando alguém à mesa anuncia que certo romance é uma fraude. Pergunto se leu. A pessoa faz uma pausa, como se eu tivesse exigido o reconhecimento de firma da opinião. Não leu, mas viu uma resenha, acompanhou a discussão e recebeu um trecho pelo celular. Está suficientemente informada, garante. O livro, pelo visto, foi o único participante dispensado do julgamento.
Conheço a tentação. Um comentário espirituoso chega pronto, cabe numa conversa e nos dá a agradável aparência de quem percebeu o que os outros não perceberam. Ler o romance exigiria algumas noites. Repetir que ele é superestimado exige uma sobrancelha levantada. A economia de esforço é considerável; o problema é o que fazemos com o troco.
Não tenho nada contra resenhas. Gosto delas, inclusive das que me fazem desistir de uma compra. Uma boa resenha apresenta razões, examina escolhas, permite que eu acompanhe o raciocínio de alguém que esteve diante da obra. Serve para orientar uma decisão. O truque começa quando tomo emprestada a conclusão e apago, ao repeti-la, o nome do credor. Passo a falar como testemunha de uma coisa que conheço por relato.
Ora! Ninguém precisa ler todos os livros. Nem todos os romances polêmicos merecem nossas horas, nem a curiosidade alheia determina nossa agenda. Posso não querer ler um autor, achar a premissa desinteressante, considerar o preço excessivo ou simplesmente preferir dormir. Tudo isso é perfeitamente defensável. O que não se sustenta é transformar minha decisão de não ler numa avaliação do que deixei fechado.
A opinião já vem com embalagem
Há uma diferença entre dizer que uma resenha me convenceu a evitar um livro e afirmar que o livro é ruim. Na primeira frase, informo o alcance do meu conhecimento. Na segunda, escondo esse alcance. Parece uma sutileza de professor implicante, mas a honestidade intelectual mora justamente nessas pequenas indicações de procedência. Quem viu? Quem leu? Como chegou à conclusão? Perguntas modestas, de enorme inconveniência.
O trecho isolado facilita o serviço. Uma personagem diz uma brutalidade, a imagem circula, e o autor recebe a sentença. Pode ser que a obra sustente aquela brutalidade. Pode ser que a exponha ao ridículo, prepare sua contestação ou construa um narrador em quem seria imprudente confiar. Sem acompanhar o movimento do texto, ainda não sei. Sei apenas que encontrei aquelas palavras naquela página. Já é alguma coisa; não é o livro inteiro.
Experimente esse procedimento com Dom Casmurro: escolha uma acusação de Bentinho e trate-a como um relatório independente. A leitura de Machado de Assis exige atenção a quem conta, ao que omite, ao modo como busca nossa cumplicidade. A graça também está no trabalho que o leitor precisa fazer. Arrancar uma frase desse arranjo e levá-la ao tribunal da conversa pode produzir uma bela convicção. Produz conhecimento com muito menos facilidade.
A sequência de comentários na rede, a famosa thread, acrescenta outra comodidade: organiza a indignação em prestações. Quando chego ao último comentário, posso ter aprendido algo ou apenas adquirido o vocabulário de uma disputa. Preciso distinguir as duas coisas. Reconhecer palavras de ordem, saber quem está de cada lado e dominar a piada corrente não equivale a compreender as razões de um romance.
Também o elogio participa da festa. Recomenda-se com entusiasmo o clássico jamais aberto, celebra-se a coragem de páginas desconhecidas, declara-se indispensável uma obra cuja lombada serviu de cenário. O elogio parece generoso e, por isso, recebe menos fiscalização. Mas a cabeça aprende o mesmo vício: afirmar com segurança aquilo que não examinou. A vaidade pode vestir o uniforme da cultura e continuar sendo vaidade.
O direito de ainda não saber
É por isso que me parece insuficiente chamar tudo isso de preguiça. O preguiçoso pode ser bastante sincero: não li porque deu trabalho. A desonestidade começa quando ele promove essa ausência a competência. E nem precisa enganar outra pessoa. Basta convencer a si mesmo de que a familiaridade com uma controvérsia lhe deu intimidade com o objeto dela. Assim se perde a capacidade de reconhecer a própria ignorância.
A exigência filosófica de compreender antes de julgar tem uma aplicação doméstica excelente: deixar a conclusão esperando enquanto se examina o assunto. Não exige solenidade, vocabulário difícil ou silêncio eterno. Exige tolerar o pequeno constrangimento de ainda não ter opinião. Numa mesa em que todos parecem prontos, admitir isso pode soar como derrota. Eu começaria a desconfiar justamente dessa competição em que vence quem precisa saber menos para falar primeiro.
Pois bem. Proponho uma regra que pretendo aplicar primeiro à minha própria língua: só falar mal de livro que li até o fim. Isso não me obriga a terminar uma leitura insuportável. Posso abandoná-la e explicar, com precisão, o que me fez parar. Outra coisa é estender o atestado às páginas que não conheci. Terminar tampouco me torna infalível; apenas me dá condições de responder pelo julgamento da obra inteira.
E só falar bem também. A regra precisa alcançar os amigos, os autores que combinam comigo, os títulos que ficariam elegantes na minha estante. Na próxima conversa, quero poder sustentar o elogio com a mesma responsabilidade que exijo da censura. Até lá, o café pode esfriar, alguém pode estranhar meu silêncio e a discussão pode seguir sem minha contribuição. Prefiro perder a vez a entregar minha cabeça para que outra pessoa a use.
Referências
- ASSIS, Machado de. Dom Casmurro. 1899. Obra em domínio público. Disponível em: dominiopublico.gov.br
- ADLER, Mortimer J.; VAN DOREN, Charles. Como ler livros: o guia clássico para a leitura inteligente. São Paulo: É Realizações, 2010.
- BAYARD, Pierre. Como falar dos livros que não lemos? Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.
