Ler devagar é um ato de coragem

7min de leitura
Imagem: Renata Cabral/Ler Livros

Um livro de trezentas páginas, um lápis e um mês inteiro. Eis um programa capaz de deixar aflito o leitor que fez uma planilha em janeiro. Dez páginas por dia? Só isso? Enquanto ele avança até o segundo capítulo, alguém já anunciou dez livros concluídos. O placar parece humilhante. Mas imaginemos uma conversa entre os dois: o primeiro consegue explicar por que mudou de opinião sobre um personagem; o segundo precisa consultar a lista para lembrar o que leu. Quem aproveitou melhor o mês?

O exemplo é imaginário, claro. Há quem leia dez livros num mês com proveito, assim como há quem passe um ano diante do mesmo volume sem prestar atenção. Não proponho uma fiscalização da velocidade alheia. Desconfio é do instante em que o número de livros termina substituindo a razão de abri-los. A meta de cinquenta por ano pode organizar um hábito; também pode transformar a biblioteca numa coleção de tarefas vencidas. O livro acaba, recebe um visto e desaparece.

Ora! Se o propósito fosse simplesmente chegar à última página, bastaria começar por ela. A graça está no que acontece pelo caminho: uma distinção que não sabíamos fazer, uma decisão que julgamos depressa demais, uma frase cuja dificuldade revela a confusão da nossa própria cabeça. Essas coisas atrapalham o cronograma. Exigem voltar, comparar, ficar alguns minutos sem avançar. Na contabilidade das páginas, parecem prejuízo. Na formação do leitor, podem ser o melhor resultado da tarde.

Tenho a impressão de que parte da pressa nasce de um medo pouco elegante de confessar. Medo de perder o próximo lançamento, de não acompanhar a conversa, de parecer menos instruído que o sujeito ao lado. A promessa de leitura dinâmica e o resumo de quinze minutos encontram aí um cliente disposto. Um resumo pode orientar uma escolha; o problema começa quando o tratamos como substituto de todo encontro com a obra. Queremos ter passado pelo livro sem permitir que ele nos detenha.

Duas virtudes à mesa

Temperança é a virtude que ordena os apetites e os prazeres segundo a razão. Aplicada à estante, ela permite desejar um livro novo sem obedecer imediatamente ao desejo. Há títulos excelentes que não lerei, e aceitar isso me parece um começo de liberdade. Comprar mais um volume é fácil; reconhecer que o já aberto merece a atenção disponível custa um pouco mais. A novidade não precisa ser inimiga para deixar de ser nossa chefe.

Fortaleza é a virtude que sustenta a busca do bem diante do medo e das dificuldades. No caso da leitura, aparece em escala doméstica: aguentar a página que resiste, procurar uma palavra, refazer um argumento. Não estou equiparando uma tarde de estudo aos grandes sofrimentos humanos. Apenas lembrando que também treinamos a firmeza em tarefas pequenas. Abandonar todo livro que ainda não nos agradou na página trinta é conceder ao primeiro desconforto um poder excessivo.

Pois bem: isso obriga alguém a terminar qualquer coisa? Não. Há livros ruins, escolhas inadequadas e momentos impróprios. A prudência também tem lugar à mesa. Podemos interromper uma leitura por uma razão examinada; convém desconfiar quando a razão é sempre o aparecimento de algo mais fácil. Se todo autor precisa nos conquistar antes de nos exigir alguma coisa, quem educa quem? Uma formação feita apenas de agrados corre o risco de conservar intactos os nossos defeitos.

O filósofo alemão Josef Pieper escreveu sobre as virtudes fundamentais e sobre o ócio como base da cultura. Essa aproximação ajuda a pensar o leitor: reservar tempo para compreender exige alguma independência diante da obrigação de produzir resultados visíveis. Nem tudo o que merece nossa atenção entrega um comprovante ao fim da hora. Ler pode pedir uma disponibilidade que a ansiedade de rendimento torna difícil. O tempo livre continua ocupado quando levamos para ele o mesmo fiscal de produtividade.

Mas devagar não significa sonolento. Em Como ler livros, Mortimer Adler e Charles Van Doren apresentam a boa leitura como atividade: o leitor pergunta, identifica o assunto, acompanha os argumentos e avalia o que encontrou. O guia sobre o método de Adler oferece uma entrada para essa conversa. Passar os olhos lentamente enquanto se pensa no jantar não concede mérito especial. A atenção dá sentido ao ritmo; a lentidão, sozinha, não faz o trabalho.

Por isso, o lápis importa. Uma pergunta na margem pode valer mais que vinte páginas atravessadas por obrigação. Por que concordei com este argumento? O narrador sabe aquilo que afirma? O que eu responderia a essa objeção? Há páginas que pedem rapidez e outras que pedem releitura. Ler bem inclui perceber a diferença. O leitor das trezentas páginas não ganha por demorar um mês: ganha se, ao terminar, consegue responder melhor do que respondia ao começar.

Proponho uma experiência para este mês: escolha um livro, só um, e leia até o fim com lápis na mão. Escolha com cuidado, reserve um horário e dê à dificuldade uma chance antes de decretar o fracasso. Talvez ninguém se impressione com o seu balanço mensal. Suporte também isso. Deixe que a última página encontre alguém capaz de fazer uma pergunta que a primeira ainda não havia ensinado.


Referências

  • ADLER, Mortimer J.; VAN DOREN, Charles. Como ler livros. São Paulo: É Realizações, 2010.
  • PIEPER, Josef. As virtudes fundamentais.
  • PIEPER, Josef. Ócio e vida intelectual.
  • Instituto Pró-Livro. Disponível em: prolivro.org.br
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Filósofo e articulista. Escreve como quem conversa à mesa, com ironia e franqueza, sobre o que a filosofia perdeu quando deixou de buscar a verdade. Para ele, pensar é resistir à confusão do tempo presente — é manter acesa a chama da lucidez num mundo que já se acostumou à mentira. Em seus textos, fala ao leitor como a um amigo, provocando-o a não ter medo de ver as coisas como realmente são.