Os mortos ainda têm livros abertos

7min de leitura
Imagem: Renata Cabral/Ler Livros

Na primeira página de um livro herdado, uma dedicatória ocupa o espaço que a impressão deixou em branco. A tinta perdeu força, mas a inclinação das letras conserva alguma coisa do gesto: alguém apoiou o punho naquele papel, escolheu uma data, escreveu um nome. Hoje, 2 de novembro, Dia de Finados, penso nessa pequena superfície em que duas pessoas ainda se encontram, embora uma delas já não possa abrir a porta. Antes de começar a leitura, há uma caligrafia a reconhecer.

Uma estante herdada costuma chegar acompanhada de tarefas práticas. É preciso limpar as prateleiras, decidir onde caberão os volumes, separar os exemplares repetidos. O trabalho das mãos oferece algum descanso ao sentimento. Mas basta que um bilhete escape entre duas páginas para interromper a arrumação. O livro deixa de ser uma coisa que precisa encontrar lugar na casa. Passa a pedir um lugar na nossa atenção.

Não suponho que todos os objetos guardados mereçam permanecer conosco. Há um peso injusto na obrigação de conservar tudo o que pertenceu a alguém. Também se pode amar uma pessoa e distribuir seus livros. Interessa-me, porém, a diferença entre guardar um volume para que nada mude e abri-lo para que alguma coisa continue. A leitura põe em movimento aquilo que a lembrança, por zelo, às vezes mantém imóvel.

A literatura participa de uma das conversas mais antigas que sabemos sustentar: a dos vivos com os mortos. Não devolve uma presença inteira. Faltam a voz, a hesitação, o ruído da cadeira, tudo o que acompanha uma pessoa quando fala. Ainda assim, permite uma proximidade difícil de obter por outros meios. Alguém que deixou de existir há séculos organiza, durante alguns minutos, a nossa respiração pela extensão de suas frases.

Isso me parece extraordinário justamente porque acontece sem cerimônia. Podemos ouvir um escritor morto sentados à mesa da cozinha, enquanto a água esquenta. Ele nos alcança no meio de um dia comum. Não precisamos reconstituir seu mundo por inteiro para perceber uma ironia, acompanhar um raciocínio ou reconhecer uma vergonha. A distância permanece, mas deixa de impedir o encontro.

Um morto que nos observa

Machado de Assis morreu em 1908. A informação cabe numa linha de biografia; sua prosa, felizmente, não se acomoda ali. Ao ler Memórias Póstumas de Brás Cubas, encontro uma inteligência que continua a perturbar as justificativas com que tornamos apresentáveis os nossos interesses. O narrador está morto, mas reconheço depressa os movimentos de sua vaidade. Basta lembrar uma conversa recente em que me atribuí mais generosidade do que tive.

Brás Cubas conta a própria vida depois de encerrá-la. A posição lhe permite tratar a morte sem a solenidade que costumamos exigir dela e a vida sem as desculpas que oferecemos a nós mesmos. Há humor nessa inversão, um humor que impede a reverência automática. Quem abre o romance à procura de um monumento encontra uma voz inconveniente, capaz de puxar assunto e logo desarrumar a cadeira do leitor.

Convém distinguir essa voz da pessoa que escreveu o livro. Brás Cubas não é Machado, e um romance não nos entrega seu autor sem mediações. Mas a invenção também é uma maneira de dirigir a palavra a alguém. Nas escolhas de ritmo, nos cortes, no que se expõe e no que se deixa suspenso, uma inteligência encontra outra. O escritor não precisa confessar a própria vida para participar da nossa.

Talvez por isso eu desconfie da ideia de que ler os mortos seja necessariamente procurar abrigo. Alguns livros abrigam; outros retiram proteções. Voltar a um autor antigo pode tornar menos confortável a maneira como julgamos o presente e, sobretudo, a nós mesmos. A permanência literária admite o desacordo. Podemos contestar uma página, estranhar seus limites, perceber nela uma injustiça. Continuar a conversa exige essa liberdade.

Uma herança que se abre

Penso nos livros em domínio público como uma estante herdada coletivamente. Não conhecemos todos os antigos donos, nem escolhemos cada volume recebido. Há ali obras que pedem contexto, outras que ainda esperam leitores, outras que talvez nunca nos interessem. A herança não exige admiração uniforme. Oferece a possibilidade de escolher e de levar adiante o que, sem esse encontro, poderia ficar fechado.

Receber essa estante, entretanto, é diferente de conseguir usá-la. Um arquivo disponível não resolve sozinho a falta de tempo, de familiaridade ou de alguém que ajude a atravessar as primeiras páginas. Bibliotecas, professores, editores e leitores fazem esse trabalho de aproximação. Penso com gratidão em quem indica um livro sem transformar a indicação numa prova de cultura. Uma herança se torna habitável quando podemos entrar nela sem constrangimento.

Neste Dia de Finados, gosto de imaginar a leitura como um gesto modesto de hospitalidade. Não precisamos exigir de um livro uma lição sobre a perda, nem fazer de cada página uma homenagem. Podemos simplesmente conceder tempo a uma voz que ainda tem algo a dizer. Se houver riso, que haja. Os mortos que escreveram não nos deixaram somente motivos para baixar os olhos.

Volto à dedicatória no livro herdado. A mão que a escreveu já não pode acrescentar uma palavra, e essa impossibilidade não desaparece quando começo a ler. Mas as páginas seguintes continuam disponíveis. Posso encontrar nelas algo que o antigo dono não percebeu, discordar de um trecho que ele sublinhou, demorar onde passou depressa. Deixo um marcador algumas folhas adiante. O livro acaba de ganhar uma lembrança que ele não tinha.


Referências

  • ASSIS, Machado de. Memórias Póstumas de Brás Cubas. 1881. Obra em domínio público. Disponível em: dominiopublico.gov.br
  • Academia Brasileira de Letras. Machado de Assis: biografia. Disponível em: academia.org.br
  • Fundação Biblioteca Nacional. BNDigital. Disponível em: bndigital.bn.gov.br
  • BRASIL. Lei nº 9.610, de 19 de fevereiro de 1998 (Lei de Direitos Autorais). Disponível em: planalto.gov.br
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Ensaísta e professora de literatura. Escreve sobre o valor formativo da leitura e o papel do livro como espaço de silêncio, contemplação e permanência em uma época marcada pela pressa e pela superficialidade. Em seus textos, reflete sobre como a leitura educa o olhar, purifica a sensibilidade e ensina o homem a habitar o tempo com mais profundidade.