Imagino uma aula de história começando com o som da Missa de Réquiem, de José Maurício Nunes Garcia. A professora põe a gravação para tocar. A turma, preparada para suportar alguns minutos de música de igreja que considera chata, vai ficando quieta. Nessa cena possível, o silêncio não significa conversão religiosa nem aprovação unânime. Significa que alguma coisa pediu atenção antes que viesse a explicação. Eu gostaria de abrir assim uma aula sobre o Brasil.
Depois da escuta, escreveria no quadro o nome do compositor e duas datas: 1767 e 1830. José Maurício nasceu e morreu no Rio de Janeiro. Era filho de pais pardos livres e neto de africanos escravizados. Foi padre, professor e compositor. Esse homem negro, cuja vida atravessou a passagem da cidade colonial a sede da monarquia portuguesa, chegou a um dos postos centrais da música de seu tempo. Quantos alunos terminam a escola sem encontrar seu nome?
A pergunta também serve para nós, professores. Quando escolhemos as pessoas que apresentarão uma época aos estudantes, distribuímos atenção. Reis e ministros aparecem porque seus atos alteraram governos e fronteiras. Mas quem ensinava música, preparava cantores e escrevia para cerimônias também construía aquele mundo. Uma partitura pode contar algo que o mapa político deixa de fora: o trabalho necessário para uma sociedade produzir beleza.
Um ofício no centro da corte
José Maurício foi ordenado padre em 1792 e tornou-se mestre de capela da Sé do Rio de Janeiro em 1798. No ano seguinte, compôs as Matinas de Natal. A sequência ajuda a devolver espessura à biografia. Quando a família real portuguesa desembarcou no Brasil, em 1808, encontrou um músico formado, com responsabilidades e obra própria. A corte não trouxe consigo o começo da cultura musical da cidade.
Com a instalação da monarquia no Rio, ele se tornou mestre de capela da Capela Real e compôs para D. João. É importante reconhecer a dimensão dessa conquista sem transformá-la em prova de que as oportunidades estavam abertas a todos. A escravidão organizava a sociedade em que vivia. O lugar alcançado por um homem negro não apaga essa injustiça; tampouco a injustiça deve apagar o que ele estudou, ensinou e realizou.
Interessa-me a pessoa concreta entre essas duas simplificações. Houve formação, exercício do ofício e capacidade de assumir responsabilidades. José Maurício também deu aulas de música. Ensinar exige repartir tempo e conhecimento, corrigir o mesmo erro mais de uma vez, reconhecer o que o aprendiz ainda não consegue fazer. Ao lado das composições, esse trabalho merece entrar no retrato. A cultura se transmite também nessa escala discreta.
A chegada do compositor português Marcos Portugal alterou a distribuição de prestígio e de encargos musicais na corte. José Maurício perdeu espaço. Seria tentador organizar a história como um duelo simples entre o brasileiro desprezado e o europeu favorecido. Prefiro deter-me no que a obra permite afirmar: ele continuou compondo. Em 1816, escreveu sua Missa de Réquiem por ocasião da morte da rainha D. Maria I.
Não conhecemos seus pensamentos ao abrir cada folha de papel. Não precisamos inventá-los para reconhecer fortaleza na continuidade do trabalho depois da perda de posição. Quanto à temperança, seria imprudente deduzir uma vida moral inteira da ausência de escândalos conhecidos. O exemplo que podemos examinar está na dedicação ao ofício: a disciplina que uma produção de centenas de obras sacras pressupõe, somada às obrigações de padre e professor.
Sua fé pertence à história dessa música. José Maurício era padre católico e compunha para a liturgia; retirar esse dado tornaria sua atividade incompreensível. Reconhecê-lo não exige do ouvinte a mesma crença. Uma igreja pode ser lugar de culto para uns e de encontro com a arte para outros. Essa herança pertence hoje a todos os brasileiros, inclusive aos que não professam religião.
Também convém medir a palavra esquecimento. A perda de espaço na corte não explica sozinha tudo o que veio depois; gostos e repertórios mudam. Sua música voltou a ser gravada e executada no século XX e segue em repertório. Ele é patrono de uma cadeira da Academia Brasileira de Música, e suas partituras integram acervos. Há memória preservada. Falta fazê-la circular para além dos ambientes especializados, até chegar à aula comum e à conversa de casa.
Novembro oferece uma ocasião para isso. Ao pensar uma educação sobre a consciência negra que vá além de Zumbi, proponho aos professores a biografia desse compositor. Ela amplia nosso repertório de pessoas e realizações. O especial sobre consciência negra pode acompanhar a preparação, mas eu reservaria o primeiro momento ao som. Antes da resposta esperada, deixaria os alunos formular uma pergunta.
Em sala ou em casa, basta começar por um trecho das Matinas de Natal ou da Missa de Réquiem. Depois, perguntar o que aquela música conta sobre o Brasil por volta de 1800: quem a escreveu, para quem, em quais espaços ela soava? A escuta não responde a tudo; abre o caminho para ler e investigar. Eu deixaria no quadro o nome de José Maurício durante a conversa. Que ao menos dessa aula ninguém saia sem saber a quem deve a música que ouviu.
Referências
- Academia Brasileira de Música. José Maurício Nunes Garcia. Disponível em: abmusica.org.br
- Biblioteca Nacional. Acervo de partituras da Biblioteca Nacional Digital. Disponível em: bndigital.bn.gov.br
- Brasil Escola. José Maurício Nunes Garcia. Disponível em: brasilescola.uol.com.br
- Enciclopédia Itaú Cultural. José Maurício Nunes Garcia. Disponível em: enciclopedia.itaucultural.org.br
