Sertillanges: “Duas horas por dia bastam para uma obra”

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Imagem: Renata Cabral/Ler Livros

Uma coisa é ocupar o dia; outra é aplicar a inteligência. Alguém começa a manhã diante de um livro e termina a noite alternando notificações, mensagens e abas abertas. Respondeu, encaminhou, conferiu. Está exausto. A página continua quase intacta, e a tarefa importante permanece por fazer. A sensação é de ter trabalhado quinze horas e de não ter produzido duas. Faltou tempo? Antes de consultar o relógio, convém examinar a atenção. É essa distinção que o dominicano católico A.-D. Sertillanges nos obriga a fazer.

Onde a frase aparece?

Em A vida intelectual, capítulo IV, “Os momentos de plenitude”, Sertillanges escreve, na tradução em português atual:

“Abrir-se assim à verdade, abstrair-se de todo o resto e, se posso dizer, tirar um bilhete para outro mundo — esse é o verdadeiro trabalho. É dele que falamos quando dizemos que duas horas por dia bastam para uma obra. Evidentemente, é pouco; mas, cumpridas todas as condições, na verdade isso basta e vale mais que as supostas quinze horas com que tantos fanfarrões atordoam os ecos.”

Logo depois, precisa: “A questão principal não está aí: está no emprego, está no espírito.” A exigência já aparecia no capítulo I: “Você tem duas horas por dia? Pode comprometer-se a preservá-las com zelo, a empregá-las com ardor”. São palavras de Sertillanges, pertencentes ao texto da obra, não à introdução nem às notas.

O que Sertillanges queria dizer?

Vejamos. “Abrir-se assim à verdade”: o trabalho começa pela disposição de receber o que o objeto ensina. Quem lê somente para confirmar a própria opinião fecha a porta antes da aula. “Abstrair-se de todo o resto”: escolher exige deixar alguma coisa de fora. A inteligência que pretende atender a tudo acaba concedendo a cada assunto uma visita de cortesia.

“É dele que falamos”: notem bem o pronome. As duas horas dizem respeito àquele trabalho atento, não a qualquer permanência diante da mesa. E “cumpridas todas as condições” impede a leitura preguiçosa da promessa. Não se recebe uma obra em troca de cento e vinte minutos de presença. É preciso entregar a inteligência.

Sertillanges admite que certos obstinados trabalharam muitas horas: “uma feliz monstruosidade, quando não uma loucura ruinosa”. Para os trabalhadores normais, considera durável uma dedicação entre duas e seis horas. Não proponho transformar essa observação em lei fisiológica. Seu argumento distingue duração e qualidade. Quinze horas dispersas podem valer menos que duas de concentração plena.

O núcleo está no “espírito”. Pôr-se em “estado de eternidade” é suspender a pressa que exige uma recompensa a cada instante. Afastar do campo visual, “como o atirador”, tudo o que não é o alvo significa dar ao assunto condições de ser compreendido. O relógio registra duração; não certifica entendimento.

O erro tem nome: ativismo, a confusão entre ocupação e fecundidade. Sua companheira é a dissipação, que reparte a atenção até torná-la incapaz de permanecer. Sertillanges evoca São Tomás diante de Paris, disposto a trocar a cidade inteira por um comentário de Crisóstomo. O episódio mostra uma prioridade. Escolhemos segundo aquilo que amamos; a agenda acaba revelando essa ordem.

O que isso responde hoje?

Voltemos à mesa da abertura. A notificação não escolheu sozinha o lugar que ocupa. Houve uma concessão, repetida muitas vezes. Também há mensagens necessárias e deveres urgentes. A prudência distingue uns dos outros e escolhe duas horas possíveis, com um alvo definido: compreender um capítulo, examinar um argumento, redigir uma página.

A temperança afasta o supérfluo: a notificação, a aba, o rumor. A fortaleza sustenta a atenção quando o primeiro cansaço pede distração. A justiça dá à obra e aos outros o que lhes devemos, em vez de lhes reservar as sobras depois de gastar o melhor no trivial. Essas virtudes podem ser reconhecidas pela razão e praticadas à mesa de qualquer leitor.

Um horário fixo, um só objeto, o celular em outro cômodo. O conselho parece modesto porque deixa pouco espaço para encenação. Quem deseja ler e pensar por conta própria precisa suportar o intervalo entre encontrar uma dificuldade e compreendê-la. Trocar de aba costuma encerrar esse intervalo cedo demais.

Marque amanhã duas horas e preserve esse mesmo horário nos dias seguintes. Deixe o celular fora do alcance e dedique esse tempo a uma única leitura ou tarefa. Comece. Hugo de São Vítor, no Didascalicon, dirá o que ler e em que ordem: Aprende tudo. Será nosso próximo mestre. Para aprender, primeiro permaneça.


Referências

  • Archive Public Domain. A vida intelectual, de Sertillanges: ficha de registro APD-2026-00057-6. Disponível em: archivepublicdomain.com
  • Britannica. Antonin-Gilbert Sertillanges. Disponível em: britannica.com
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Filósofo e articulista. Escreve como quem conversa à mesa, com ironia e franqueza, sobre o que a filosofia perdeu quando deixou de buscar a verdade. Para ele, pensar é resistir à confusão do tempo presente — é manter acesa a chama da lucidez num mundo que já se acostumou à mentira. Em seus textos, fala ao leitor como a um amigo, provocando-o a não ter medo de ver as coisas como realmente são.