Razão e Sensibilidade e a exigência de amar bem

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Imagem: Renata Cabral/Ler Livros

Fechei o romance com uma frase de Elinor ainda na cabeça: ela não amava só a ele. Eu tinha voltado a Razão e Sensibilidade depois de ver no cinema a nova adaptação, dirigida por Georgia Oakley, em cartaz no Brasil desde 29 de outubro. Esperava reencontrar as irmãs Dashwood; encontrei também uma pergunta incômoda. Quanto do que chamamos amor suporta a existência dos outros, com suas necessidades, seus limites e seus direitos?

O filme, com Daisy Edgar-Jones como Elinor e Esmé Creed-Miles como Marianne, põe a relação entre as irmãs no centro e adota um registro mais naturalista. A recepção crítica tem sido, em geral, favorável. Mas o que me levou de volta às páginas não foi uma comparação com a versão de Ang Lee, de 1995. Foi a vontade de compreender por que essa história ainda pode emocionar quem nunca leu Austen.

No romance, a casa de Barton Cottage, o piano e as conversas domésticas dão medida concreta aos afetos. Há pouco espaço para alguém sofrer sem que os outros percebam. Marianne deseja um amor à altura do que sente; Elinor precisa encontrar lugar para o que sente numa casa onde todos sentem também. A diferença entre elas não é a quantidade de coração.

Austen apresenta Elinor assim, no primeiro capítulo: “Tinha um coração excelente; sua índole era afetuosa, e seus sentimentos eram fortes; mas sabia governá-los: era um saber que a mãe ainda tinha de aprender, e que uma de suas irmãs resolvera jamais aprender.” A última observação impede que a prudência pareça um dom confortável. Há uma escolha em aprender a governar os sentimentos, assim como há uma escolha em recusar esse aprendizado.

Marianne se entrega ao encanto de Willoughby antes de conhecer suficientemente seu caráter. Reconhecer gostos, entusiasmos e afinidades parece bastar. Entendo essa pressa: ser compreendida pode parecer a mesma coisa que estar segura. Austen, porém, abre uma distância entre as duas experiências. O tempo da corte deveria permitir observar como alguém age quando o desejo encontra um impedimento. O encanto diz pouco sobre quem ficará para responder pelas consequências.

A palavra também ama

Edward Ferrars mantém o antigo noivado com Lucy Steele mesmo amando Elinor, porque deu sua palavra. Isso não torna feliz uma promessa imprudente, nem transforma Lucy na pessoa certa. Torna visível o peso de ter comprometido a própria vida e a de outra pessoa. A liberdade de prometer exige cuidado antes da promessa; depois dela, exige mais do que consultar o sentimento presente.

Elinor, por sua vez, guarda durante quatro meses o segredo que Lucy lhe confiou. No capítulo XXXVII, Marianne descobre a duração desse sofrimento: “— Quatro meses! — exclamou Marianne de novo. — Tão calma! tão alegre! Como conseguiu se sustentar?” Elinor responde: “— Sentindo que cumpria o meu dever. Minha promessa a Lucy me obrigava ao segredo.”

Logo adiante, ela explica: “Sim. Mas eu não amava só a ele; e, enquanto o sossego dos outros me era caro, alegrava-me em poupá-los de saber o quanto eu sentia.” É aqui que o livro me alcança. A mãe, a irmã, os amigos continuam existindo quando Elinor sofre. Seu amor por Edward não recebe licença para ocupar sozinho a casa inteira.

Não leio nisso uma obrigação de esconder toda dor. Há sofrimentos que precisam de companhia e de ajuda. O que admiro em Elinor é a recusa de fazer do próprio sentimento a medida de todas as obrigações. Seu silêncio custa alguma coisa. O domínio de si permite que ela escolha o que fazer com a dor, sem precisar negar que a sente.

Willoughby oferece o contraste. Seu encanto não resiste à conveniência do dinheiro. O narrador não deixa que a paixão sirva de desculpa: “O mundo o fizera extravagante e vaidoso; a extravagância e a vaidade o haviam feito frio de coração e egoísta.” Ele pode sentir intensamente e ainda assim agir mal. A intensidade não paga as dívidas que uma pessoa contrai com a confiança de outra.

No romance, o coronel Brandon vai buscar a mãe de Marianne quando ela adoece. Há nesse serviço uma forma de amor que não precisa exigir atenção para existir. Marianne aprende a reconhecer um caráter que o primeiro entusiasmo não lhe permitia estimar. Brandon não adquire direitos sobre ela por ajudá-la; sua conduta oferece algo que ela poderá conhecer e julgar.

Publicado em 1811, o primeiro romance de Austen nasce numa cultura marcada pela tradição cristã, para a qual o matrimônio compreendia fidelidade, filhos e responsabilidades duradouras. Uma casa participava da vida comum; não se esgotava na satisfação do casal. Austen também mostra o dinheiro e as conveniências que atravessam as escolhas. Herdar o que havia de bom nesses costumes exige discernimento, não saudade de figurinos.

É essa exigência que reconheço na leitura de Jane Austen: conhecer antes de prometer, prometer com responsabilidade, procurar caráter antes de encanto. Um vínculo orientado por um bem comum pode libertar duas pessoas da obrigação de obedecer a cada mudança de humor. Voltar aos clássicos, aqui, tem uma utilidade íntima. O romance está em domínio público e tem edição em português atual indicada nas referências. Depois do cinema, suas páginas deixam tempo para essa pergunta: que casa os nossos sentimentos seriam capazes de sustentar?


Referências

  • Archive Public Domain. Razão e Sensibilidade, de Jane Austen: ficha de registro APD-2026-00047-7. Disponível em: archivepublicdomain.com
  • Britannica. Jane Austen. Disponível em: britannica.com
  • Rotten Tomatoes. Sense and Sensibility (2026). Disponível em: rottentomatoes.com
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Ensaísta e professora de literatura. Escreve sobre o valor formativo da leitura e o papel do livro como espaço de silêncio, contemplação e permanência em uma época marcada pela pressa e pela superficialidade. Em seus textos, reflete sobre como a leitura educa o olhar, purifica a sensibilidade e ensina o homem a habitar o tempo com mais profundidade.