Tomás de Aquino: “Apenas o falso se opõe ao verdadeiro”

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Imagem: Renata Cabral/Ler Livros

Estudar a origem do mundo e perguntar por seu fundamento são coisas distintas; à mesa do jantar, porém, a distinção desapareceu. A filha, que cursa biologia, comenta o que aprendeu sobre a origem da vida. A avó, que pouco antes rezava o terço, escuta como se ouvisse uma renúncia à fé. A jovem percebe a reserva e suspeita de uma recusa do conhecimento. A conversa termina em silêncio constrangido: cada uma sente que a outra trai algo precioso. Antes de distribuir culpas, convém perguntar: quem precisa escolher entre acreditar e saber?

Onde a frase aparece?

Na Suma contra os gentios, Livro I, capítulo 7, intitulado “A verdade da fé cristã não contradiz a verdade da razão”. Tomás de Aquino, filósofo e teólogo católico, examina uma dificuldade precisa. Vejamos a primeira frase da tradução em português atual: “Embora a verdade da fé cristã ultrapasse a capacidade da razão humana, os princípios que a razão conhece naturalmente não podem contradizê-la.”

“Embora” introduz uma concessão: há, para Tomás, verdades da fé que a razão humana não alcança por suas próprias forças. “Os princípios que a razão conhece naturalmente” designam aquilo que o entendimento reconhece sem depender da revelação. Notem bem: ele não chama de princípio qualquer opinião que nos agrade. Uma preferência não se transforma em evidência porque falamos com firmeza.

O argumento prossegue: “Ora, como apenas o falso se opõe ao verdadeiro, conforme mostram as próprias definições, é impossível que a verdade da fé seja contrária aos princípios que a razão conhece naturalmente.” Aqui, opor-se significa contradizer. Duas afirmações contraditórias, tomadas no mesmo sentido e sob o mesmo aspecto, não podem ambas ser verdade. Se uma afirma aquilo que a outra nega, alguma falha exige exame.

Nesse passo, Tomás parte da definição e tira uma consequência lógica. Não resolve a dificuldade mandando o leitor obedecer a uma autoridade. Tampouco demonstrou, nessa única frase, todos os conteúdos da fé. Demonstrou a incompatibilidade entre afirmar duas verdades e admitir que elas se contradigam. Ler um clássico exige acompanhar o alcance de cada argumento, sem lhe pedir menos nem lhe atribuir mais.

O que Tomás queria dizer?

Ultrapassar é diferente de contradizer. Eis a distinção que sustenta o capítulo. Uma verdade pode exceder nossa capacidade de demonstração sem negar aquilo que conhecemos. Não conseguir alcançar uma conclusão não equivale a ter demonstrado sua impossibilidade. A ignorância tem limites; seria curioso promovê-la a juíza de tudo o que existe.

Para Tomás, a fé pode ir além do que a razão alcança, sem ir contra o que a razão conhece. Ele sustenta também que Deus é “o autor de nossa natureza”: a origem da razão natural e a origem da revelação são a mesma. Essa premissa pertence ao pensamento do autor e precisa ser compreendida para que sua conclusão seja julgada com justiça.

Há dois erros simétricos: supor que a fé destrói a razão e supor que a razão destrói a fé. Dentro do argumento tomista, um conflito aparente exige rever o entendimento das afirmações: ou o argumento apresentado como racional é falso, ou a interpretação apresentada como verdade da fé é falsa. Não basta batizar uma ideia de ciência ou religião para dispensá-la do exame.

O que isso responde hoje?

Voltemos ao jantar. A filha pode explicar processos biológicos sem ter respondido por que existe uma natureza capaz desses processos. A avó pode professar a criação sem possuir, por isso, uma explicação dos mecanismos da vida. As perguntas se relacionam, mas não se confundem. O cientificismo transforma o método científico em medida exclusiva de todo conhecimento. O fideísmo pretende dispensar o trabalho da razão em nome da fé. Ambos encerram a conversa antes do exame.

A prudência distingue o que a ciência mede daquilo que ela não mede, sem tomar um método por toda a realidade. A justiça dá à razão e à fé o que cabe a cada uma, sem exigir da oração um experimento nem do microscópio uma decisão metafísica. A fortaleza suporta a tensão de uma pergunta ainda aberta. A temperança refreia a pressa de declarar vitória. À mesa, essas virtudes começam por deixar a outra pessoa terminar a frase.

Da próxima vez que alguém disser “a ciência provou que a fé é falsa” ou “a fé dispensa a razão”, peça a definição dos termos e a premissa que falta. Faça isso antes de aplaudir ou protestar. Dante dirá, no Paraíso, que na vontade de Deus está a nossa paz. Com o próximo mestre, a pergunta passará ao querer e à liberdade: o que escolhemos quando aprendemos a querer o bem?


Referências

  • Archive Public Domain. Suma contra os gentios, de Tomás de Aquino: ficha de registro APD-2026-00079-0. Disponível em: archivepublicdomain.com
  • Stanford Encyclopedia of Philosophy. Aquinas. Disponível em: plato.stanford.edu
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Filósofo e articulista. Escreve como quem conversa à mesa, com ironia e franqueza, sobre o que a filosofia perdeu quando deixou de buscar a verdade. Para ele, pensar é resistir à confusão do tempo presente — é manter acesa a chama da lucidez num mundo que já se acostumou à mentira. Em seus textos, fala ao leitor como a um amigo, provocando-o a não ter medo de ver as coisas como realmente são.