No calendário, a data parece simples. Celebra-se o livro, os autores, a imaginação. Mas há algo mais exigente por trás do Dia da Literatura Infantil: a pergunta silenciosa sobre o que, de fato, estamos oferecendo às crianças quando colocamos um livro em suas mãos. Para pensar essa questão com mais concretude, conversamos com a fonoaudióloga e professora Maynara Abreu, cuja atuação clínica é voltada ao desenvolvimento da linguagem infantil.
Existe uma forma adequada de conduzir a leitura com a criança?
Maynara: Sim, existe uma forma adequada de conduzir a leitura com a criança. A qualidade da leitura depende muito mais do que chamamos de ‘contador’, ou seja, do adulto, do que da própria criança. É o contador quem torna a história viva. Por isso, o uso de expressões faciais, variação na entonação da voz, gestos e pausas é fundamental para manter o interesse e favorecer a compreensão. Além disso, é importante envolver a criança, fazendo perguntas, apontando imagens e permitindo que ela participe da história.
Muitos pais relatam que a criança não demonstra interesse por livros. Como interpretar isso?
Maynara: Isso precisa ser interpretado com cuidado. Nem sempre significa que a criança não gosta de livros. Muitas vezes, o momento da leitura não é adequado, os livros não correspondem ao interesse da criança ou não estão na faixa etária dela. Além disso, a forma como a leitura é conduzida faz muita diferença: se é pouco interativa ou muito passiva, a criança tende a se desengajar.
Também é importante considerar aspectos do desenvolvimento. Algumas crianças podem apresentar dificuldades de atenção, compreensão ou linguagem, o que torna a experiência de leitura mais difícil e menos prazerosa. Nesses casos, é necessário adaptar o material e a forma de apresentação.
Por isso, mais do que insistir, o ideal é ajustar: escolher temas que a criança gosta, usar livros mais visuais, tornar a leitura mais dinâmica e respeitar o tempo dela.
A repetição de histórias é algo que preocupa. Isso pode limitar o desenvolvimento?
Maynara: Não é correto dizer que isso deve preocupar. A repetição de histórias faz parte do desenvolvimento infantil. Nenhuma história é vivida da mesma forma a cada leitura, sempre há algo novo a ser percebido. Longe de limitar, a repetição amplia o desenvolvimento, pois permite que a criança, aos poucos, aprofunde a compreensão, antecipe eventos, organize melhor a linguagem e se aproprie da narrativa.
Além disso, a familiaridade com a história traz segurança, o que favorece a participação ativa da criança e o desenvolvimento de habilidades linguísticas e cognitivas.
Do ponto de vista fonoaudiológico, o que você observa durante a leitura?
Maynara: É possível acompanhar o aumento do vocabulário, o contato visual, a atenção compartilhada e a intenção comunicativa, habilidades fundamentais para o desenvolvimento da linguagem.
Além disso, observamos como a criança compreende a história, se consegue apontar, nomear, antecipar acontecimentos e interagir com o adulto durante a leitura. Tudo isso nos dá pistas importantes sobre o desenvolvimento da fala, da compreensão e das habilidades sociais.
E qual seria o erro mais comum dos adultos nesse processo?
Maynara: O erro mais comum é negligenciar a importância desse momento. Muitos adultos acham que basta oferecer livros ou ter um cantinho de leitura, mas sem a mediação ativa isso perde grande parte do potencial. A leitura na infância não é uma atividade passiva, ela depende da interação.
Existe uma idade ideal para começar?
Maynara: Não. A leitura pode começar ainda na gestação. No final da gravidez, o bebê já percebe a voz da mãe, principalmente o ritmo e a entonação, o que contribui para o vínculo.
Depois do nascimento, mesmo antes de falar, a criança já pode interagir com os livros: olhar, apontar, explorar as imagens e participar da leitura junto com o adulto.
Encerramos a conversa com uma constatação simples, mas exigente: a literatura infantil não forma apenas leitores. Forma a maneira como a criança entra no mundo da linguagem.
E talvez seja justamente isso que esteja em jogo — não a quantidade de livros oferecidos, mas a qualidade da experiência que se constrói com eles.
