Audiolivro é leitura? Sim, com uma condição

6min de leitura
Imagem: Renata Cabral/Ler Livros

O sinal abriu, o carro da frente andou e o narrador continuou falando. Dois quarteirões depois, o motorista percebeu que não sabia quem havia entrado na sala, por que os irmãos discutiam nem de onde surgira aquela carta. O aplicativo avançara; ele, não. Quem já ouviu um livro conhece essa pequena separação entre o progresso da barra e o trabalho da cabeça. Ela também acontece diante de uma página: os olhos chegam ao rodapé, mas ninguém sabe dizer o que fizeram pelo caminho.

Audiolivro é leitura? Sim, com uma condição: atenção. Uso aqui leitura no sentido de acompanhar e compreender uma obra, não no sentido estrito de decifrar sinais escritos. A distinção importa, sobretudo quando falamos de alfabetização. Ouvir uma história não ensina, por si só, a reconhecer palavras na página. Mas seria uma estreiteza negar ao ouvinte a experiência intelectual de um livro só porque as frases lhe chegaram pelos ouvidos.

A literatura tem uma longa vida anterior aos nossos fones. A Ilíada pertence a uma tradição de poesia oral, transmitida em performances antes de sua fixação escrita. Não precisamos inventar uma cena com Homero segurando um manuscrito para reconhecer essa origem. Na Antiguidade e na Idade Média, a leitura em voz alta ocupava um lugar importante na circulação dos textos. A leitura silenciosa existia; seria imprudente apresentar todos esses séculos como se obedecessem a um único hábito.

Alberto Manguel, em Uma história da leitura, ajuda a perceber quanto variaram os gestos de ler. A página examinada em silêncio tem sua dignidade, mas não possui exclusividade sobre a inteligência. Antes de aprenderem as letras, crianças já acompanham histórias contadas por adultos, antecipam acontecimentos, fazem perguntas e pedem que determinada passagem seja repetida. Há trabalho mental nessa escuta. E há uma primeira educação da atenção, embora ainda falte aprender a ler por conta própria.

O ouvido também dá acesso ao livro

Em São Paulo, a Fundação Dorina Nowill para Cegos produz há décadas livros em áudio e braille. Esse trabalho deveria bastar para moderar a pose de quem transforma o papel numa espécie de certificado de leitor. Para muitas pessoas com deficiência visual, o áudio é uma via fundamental de acesso à obra. Tratá-lo como experiência de segunda categoria significa julgar a leitura pelo instrumento, deixando de lado aquilo que o leitor faz com o texto recebido.

O recurso também pode ajudar pessoas com dislexia, conforme suas necessidades, e quem encontra dificuldade para sustentar a leitura visual. Não se trata de prometer uma solução universal. Trata-se de admitir portas diferentes. Há ainda usos mais corriqueiros: ouvir um romance enquanto se dobra roupa ou durante um trajeto. Narrativas costumam se acomodar bem à continuidade da voz. No trânsito, naturalmente, a direção tem prioridade; perder um parágrafo é preferível a perder de vista a rua.

O Ler Livros publicou um guia de aplicativos para ouvir livros. Escolher a ferramenta ajuda, mas nenhuma interface decide quanto conseguimos acompanhar. A tarefa manual pode deixar espaço para a escuta; uma conversa, uma decisão de trabalho ou uma mensagem exigente podem ocupá-lo inteiro. Convém perceber a diferença. O livro não recebeu nossa atenção só porque permaneceu tocando.

Há obras que cobram outro ritmo. Num argumento filosófico, uma palavra pode exigir o retorno ao parágrafo anterior. Num texto científico, talvez seja necessário comparar uma explicação com uma figura. Um poema denso pede demora, repetição, às vezes a visão dos versos. O áudio permite voltar, claro. Mas localizar e confrontar passagens pode ser mais trabalhoso. Nesses casos, manter a edição impressa ou digital por perto, para consultar e marcar trechos, é uma providência simples.

Minha preferência é começar na velocidade normal, em 1x, e resistir à tentação de acelerar para vencer o livro. Ora, terminar depressa não é um argumento literário. A temperança aparece aí como medida: ajustar o uso ao que somos capazes de compreender, em vez de entregar o ritmo à ansiedade de acumular títulos. Não faço da velocidade uma lei para todos os ouvintes. Faço uma pergunta: ainda há tempo para pensar no que acabou de ser dito?

Também prefiro narradores que leem a narradores que parecem disputar o palco com o autor. Uma interpretação sóbria deixa espaço para imaginar. E, quando a atenção escapar, volto sem constrangimento. Respeitar o autor inclui conceder às frases a possibilidade de nos interromper, contrariar ou surpreender. Ao desligar os fones, experimento formular uma pergunta sobre o trecho ouvido. Se nada consigo perguntar, talvez a barra tenha avançado sozinha. O botão de voltar, nessa hora, é o começo da leitura.


Referências

  • Fundação Dorina Nowill para Cegos. Livros acessíveis. Disponível em: fundacaodorina.org.br
  • Instituto Pró-Livro. Site institucional. Disponível em: prolivro.org.br
  • Encyclopaedia Britannica. Oral tradition; Homer. Disponível em: britannica.com
  • MANGUEL, Alberto. Uma história da leitura. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.
Compartilhe está matéria
Filósofo e articulista. Escreve como quem conversa à mesa, com ironia e franqueza, sobre o que a filosofia perdeu quando deixou de buscar a verdade. Para ele, pensar é resistir à confusão do tempo presente — é manter acesa a chama da lucidez num mundo que já se acostumou à mentira. Em seus textos, fala ao leitor como a um amigo, provocando-o a não ter medo de ver as coisas como realmente são.